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nba por titulo: -« Extractos em Portuguez e Inglez, com as palavras propriamente accentuadas para facilitar o estudo da Lingua Portugueza.»—

No anno seguinte (1809) appareceu no Quarterley Review do mez de maio, um artigo tendente a mostrar a insufficiencia do Opusculo, e a indicar o modo de apresentar um trabalho mais perfeito e instructivo naquelle genero de escriptos.

A traducção do artigo do Quarterley Review he pois o que constitue a Memoria de Muller, com o accrescentamento de notas suas.

A linguagem da traducção não he muito castigada, e asóra isso ha na Memoria muitos erros typographicos notaveis.

Essencialmente, porém, não deixa este trabalho de ser curioso, e até certo ponto interessante, por isso que o author da noticia de algumas das nossas producções litterarias com o mais fino criterio. Na parte biographica mostra-se o author muito inteirado da vida dos nossos escriptores, nem lhe escapa mencionar as anecdotas, mais ou menos epigrammaticas, que a respeito de cada um delles se contão. O que se sabe de mais notavel acerca de Sá de Miranda, Ferreira, Caminha, Diogo Bernardes, Castanheda, Barros, Conde da Ericeira, Domingos dos Reis Quita, Francisco Dias Gomes, etc. etc. — he referido pelo author, quasi sempre com muita graça, e por vezes com a mais fina sensibilidade, quando chega o caso de deplorar o infortunio de alguns escriptores nossos.

Supposto que tenhamos hoje muitos mais elementos para apreciar devidamente a nossa Litteratura, do que tinha em 1809 o escriptor do Quarterley Review, he comtudo certo que ainda encontraremos no seu artigo algumas cousas aproveitaveis, e sobre tudo lucraremos em tomar nota de um certo modo de julgar, que he a feição caracteristica dos Criticos Inglezes.—Quando o author falla do Feliz Independente do Padre Theodoro d’Almeida, julga assim aquella producção litteraria=«Esta obra he « evidentemente producção de um entendimento sobre mapeira a abastecido de conhecimentos, e rico de combinações; se por a ventura porém a metade della se tivesse reduzido a bons ser« mões, teria a outra ganhado com esta separação. Nos termos « em que actualmente ella se acha, está a acção submergida em « discursos moraes. »=

Fallando do nosso grande Vieira, diz assim:-«Nos sermões «de Vieira, um dos homens mais abalisados, acha-se d'envolta «a mais fina rethorica com os mais fantasticos conceitos, que já« mais entrarão no juizo humano. » —

Entre as anecdotas, citaremos a seguinte, relativa a Quita: -«A sua Tragedia de D. Ignez de Castro appareceu, ha annos « a esta parte, na lingua ingleza, n'uma publicação intitulada « Theatro Allemão. O pobre Domingos dos Reis ficaria de certo << surpreso de se achar ali, e ainda mais de encontrar o titulo de « Dom, anteposto a seu nome, que foi justamente como se um « Francez traduzindo Burns, o quizesse exaltar com o titulo de « Mylord.

Veja-se, porém, o modo porque o author aprecia o facto de terem os Arcades admittido Quita como socio:-«Neste tempo a se instituío a Arcadia Portugueza, a fim de restaurar as Bellas «Lettras, e principalmente a Poesia, em um paiz, onde por tanto « tempo, e em tal excesso, havião jazido degeneradas. Faz a maior « honra aos que instituírão esta Sociedade o ser Domingos dos « Reis Quita, não obstante a sua humilde condição, unanime« mente eleito por membro della. Houve todavia pessoas assaz « illiberaes, e invejosas, que se consolárão da inferioridade na«tural de seus talentos, com reflexões satyricas sobre a pobreza «e officio mecanico de Quita, porém sua mofa não o injuriou, a nem lhe causou o menor pezar. »

Ainda depois do que escreveu Stockler acerca de Francisco Dias Gomes, como veremos adiante, no Cap. 3.o do Titulo 3.° desta Resenha, tem muito interesse o que o Author inglez diz acerca do nosso philologo.-- « Desta maneira ficou estabelecido « Francisco Dias em uma loja de mercearia, em que os seus ta« lentos se tinhão de occupar, durante a sua vida, na pratica das « operações mais communs da Arithmetica ordinaria; e em que, (a não ser elle dotado de constituição robusta, e de um vigor (extraordinariamente forte, estes e ainda maiores dons da natu« reza, ou de todo succumbirião, ou aliás vegetariam em lastiamosa esterilidade. Deste modo deu logo o peco a seu genio « nascente, mas nem por isso largou o chão, ainda que sem nunca a medrar a arvore, que aos raios do sol, em um terreno proprio, a devia com viçosa fragrancia e fertilidade acurvar-se com lindas « flores, e sasonadas fructas, e continuou a existir em uma som« bra abafadiça sem poder abrolhar, e ficarão as faculdades de « sua alma á maneira de uma criança, que posto recebesse da « natureza uma vigorosa compleição, desfalece todavia com o es« casso e apoucado alimento da indigencia.»

Em muitos pontos he deficiente o author inglez, e por vezes se torna insoffrivel em alguns juizos litterarios.

Resta agora indicar o subsidio que temos para o conhecimento biographico e litterario do traductor, João Guilherme Christiano Muller; e he o seguinte:

ELOGIO HISTORICO DE JOÃO GUILHERME CHRISTIANO MOL-
LER —por Francisco Manoel Trigoso d'Aragão Morato

Recitado na Assembléa Publica da Academia Real das
Sciencias de 24 de Junho de 1815. (Tom. 4.° das Me-

morias da Academia.) Fallando Trigoso do Ensaio sobre a Litteratura Portugueza, que Muller traduzio do Quarterley Review, e leu na Assemblea da Academia Real das Sciencias de Lisboa de 7 de Julho de 1810, diz o seguinte:«Este Ensaio, que entre muitas reflexões as«sisadas sobre o merecimento dos nossos Classicos, tanto Poetas « como Prosadores, contém cousas muito pouco exactas, e algu« mas demasiadamente pueris, como he a preferencia que dá entre aos poemas portuguezes ao do Vieira Lusitano, não merecia a a honra de ser traduzido por um sabio, que bem estava capaci« tado da imperfeição daquella Obra; mas elle considerou-a de« baixo de outra relação, qual era ministrar aos Portuguezes a « occasião de saberem o conceito, que então se formava em ou«tros paizes cultos da Litteratura da sua Nação; e dar-lhes azo « de corrigirem os juizos de um Escritor estranho, que achou «todavia nossas producções litterarias dignas de estudo. Por isso «o Traductor querendo deixar este campo livre para nelle se wexercitarem os nossos Nacionaes, só cuidou em combater ou «illustrar nas notas aquellas cousas, que acerca da mesma Lit«teratura estrangeira se havião escripto no Ensaio com demaasiada parcialidade, ou precipitação: o que era hir desafiar o «inimigo nos seus mesmos entrincheiramentos, e offerecer-lhe a um novo genero de combate, que elle estava bem longe de esa perar, »

- ENSAIO SOBRE A HistoriA DO GOVERNO E DA LEGISLAÇÃO DE PORTUGAL, PARA SERVIR DE INTRODUCÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PATR10—por M. A. Coelho da Rocha.--2. Edição

-Coimbra 1843.

Não pude resistir ao prazer de mencionar esta obra, que não só faz honra ao sew illustre author, mas acredita a Universidade

C

de Coimbra, de que foi digno Professor, e assignála, com grande distincção, os trabalhos litterarios da presente epocha.

O Ensaio versa sobre assumpto mais vasto do que aquelle que ora nos occupa; no entanto o douto e habil Professor, lançando os grandes traços da nossa verdadeira Historia, não se esqueceu de marcar os progressos da instrucção publica, e he neste particular que offerece alguns subsidios para a Historia da Litteratura, maiormente pelo facto de enlaçar aquelles progressos com o desenvolvimento da civilisação em Portugal.

O author seguio, na composição do Ensaio, a «Historia Juris Civilis Lusitani » de Paschoal José de Mello; mas supprio as ommissões desta obra, e desviou-se das opiniões em que este sabio Jurisconsulto, para se accommodar ás idéas e circumstancias do tempo, e peso da censura sob que escreveu, poz'de parte a philosophia, e judiciosa critica, que caracterisão os seus escriptos.

O periodo que decorre desde a fundação da Monarchia Portugueza foi dividido pelo author em tantas epochas, quantas têem sido as mudanças de Dynastias entre nós; e cada uma dessas epochas foi dividida em artigos, nos quaes colligio os factos relativos á organisação social do nosso paiz. Um artigo de cada uma dessas epochas é consagrado á noticia do estado das letras, e da instrucção dos portuguezes.

CAPITULO III.

CONTINUAÇÃO DA RESEN UA DOS SUBSIDIOS PARA A HISTORIA

DA LITTERATURA PORTUGUEZA

-DIVERSAS MEMORIAS SOBRE A LITTERATURA SAGRADA DOS JUDEOS PORTUGUEZES, NOS SECULOS XV A XVIII— por Antonio Ribeiro dos Santos.

Na primeira Memoria diz o author, fallando dos Judeos Portuguezes:=«Em mui grande obrigação lhes estamos pelo muito que concorrêrão para o estabelecimento dos estudos em Portugal, porque em verdade lhes devemos em muita parte os primeiros conhecimentos da Filosofia, da Botanica, da Medicina, da Astronomia, e da Cosmografia; os primeiros rudimentos da Grammatica da Lingua Santa, e quasi todos os estudos da Litteratura Sagrada, que entre nós houve antes do seculo 16, e o que muito contribuío para se espalharem, e adiantarem esses nossos conhe

cimentos, a introducção, ou polimento da Typografia Portugueza, maiormente Hebraica, com que naquelles tempos começamos de competir com as mais adiantadas nações de Italia e de Allemanba. »=

Antonio Ribeiro dos Santos recolhe nas suas Memorias as noticias, que a sua diligencia descobrio dos Judeos Portuguezes, que florescèrão nos estudos da Litteratera Sagrada, nos seculos 15 a 18, tanto em Portugal, como na Haya, em Amsterdão, em Londres, e em outros pontos da Europa.

- ENSAIO DE UMA BIBLIOTHECA LUSITANA ANTI-RABBINICA, ou MEMORIAL DOS ESCRITORES PORTUGUEZES QUE ESCREVÊRÃO DE CONTROVERSIA ANTI-JUDAICA — por Antonio Ribeiro dos Santos.

O Author julgou, ao que parece, um dever de consciencia, depois de tanto se haver occupado da Litteratura Sagrada dos Judeos Portuguezes, apresentar o catalogo dos escriptores, assim portuguezes, como dos domiciliados em Portugal, que composérão obras, manuscriptas ou impressas contra o Judaismo. “Não, « são elles muitos, mas são os que bastão, ou para poder desar«mar-se por seus escritos a incredulidade dos Hebreos com maior a honra, e gloria do Senhor, ou para se mostrar ao menos, que a nossos maiores se não descuidárão da salvação do seu proximo, a com muito credito do nome Christão, e Portuguez.» -MEMORIA SOBRE ALGUMAS TRADUCÇÕES, E EDIÇÕES BIBLI

CAS MENOS VULGARES, EM LINGUA PORTUGUEZA, ESPECIALMENTE SOBRE AS OBRAS DE JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA — por Antonio Ribeiro dos Santos.

O author pretendeu nesta Memoria encher uma lacuna, que existia neste ramo da nossa Hist. Litt. e Sagrada, apontando algumas Traducções e Edições menos vulgares dos Livros das Santas Escripturas, que havião sido feitas em portuguez, tanto no Reino, como fóra delle, ou por nacionaes, ou por estrangeiros.

Até João Ferreira A. de Almeida (ultima metade do seculo 17) a nossa rique a, no particular de que se trata, he muito pouco consideravel; podendo até asseverar-se que traducção regular dos livros sagrados foi o Almeida quem primeiro a fez na nossa lingua. Eis o juizo que Antonio Ribeiro dos Santos faz sobre o merecimento da Traducção de Almeida: «A sua linguagem, sobre ser muito propria e simples, qual convinha a tal obra,

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