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um corpo de sciencia, com todo o cortejo de verdades encadeadas e methodicamente deduzidas, tendentes a desenhar o quadro vivo do homem, a offerecer as manifestações mais interessantes do desenvolvimento do espirito, rasgos de imaginação, traços do bello moral, descripção das bellezas do universo, revelação dos segredos do coração humano, phases da civilisação dos povos:-e tudo isto encaminhado a tornar melhor o homem, a amenisar-lhe a existencia, a enriquece-lo de bellissimas e importantes recordações, deliciosas imagens, que o distrahem nos dias amargos da doença, na decrepitude da velhice, no affan e penosos trances da peregrinação da vida.

Póde, porém, recear-se, como tão elegantemente disse o douto Bispo de Viseu no elogio de Simão de Cordes, que o estudo das Humanidades, acostumando os Litteratos á suave brandura das Boas Artes, lhes torne temeroso o aspecto severo da doutrina. Além, pizarão um chão macio e semeado de rosas-aqui, encontrão alguns espinhos de difficuldade e trabalho, que offerece o caminho um pouco mais aspero, pelo campo das sciencias. O mesmo douto Prelado se incumbiu de responder a este reparo, dizendo: «... se o sanctuario he menos ornado que o vestibulo, atambem he mais augusto e venerando; e talvez o principal uso dos wornamentos do vestibulo he convidar a entrada no sanctuario.>>

E com effeito, quem impediu o eloquente Buffon de ser ao mesmo tempo notavel Litterato e grande Naturalista ? As obras d'este immortal escriptor são um documento vivo da feliz alliança que pode dar-se entre as Sciencias e a Litteratura, apresentando-nos as severas revelações da Natureza na mais formosa linguagem, e n'um estylo cheio de graça e encantos.

Vēde o Representante de um povo nas Assembléas Politicas, vede o Advogado, o Artista, — vede o partido que todos elles tirão da Litteratura! Parece que as suas diversas producções passão atravéz de hum prisma, que magicamente as reveste de bellissimas côres,-e lhes communica esse fulgor, esse enthusiasmo, essa graça, que encantão, enlevão, arrebatão.

Demais d’isso, as sciencias são hoje mais amenas e muito menos aridas do que o forão n'outras epochas, não só porque a influencia da Litteratura chegou já a basejá-las, senão tambem porque os progressos das differentes edades, favorecidos mais e mais pela benefica animação da Liberdade, teem desembaraçado a estrada, removido estorvos, e tornado mais accessivel o seu sanctuario.

Posto isto, perguntarei: Como se professa, como se estuda entre nós a Litteratura? -- Aprendemos imperfeitamente, e muito á pressa, os rudimentos da grammatica portugueza, estudamos um pouco de latim, de logica e de rhetorica, adquirimos superficiaes noções de historia e de geographia, e em seguimento vamos cursar algumas Faculdades da Universidade.

Mais tarde, se um ou outro d'entre nós começa a reconhecer a importancia, e a apreciar a amenidade, bellezas, e vantagens da Litteratura, então descobre com magoa a insufficiencia das noções que alcançára, e só a força de uma inclinação irresistivel, de um trabalho improbo, e de aturadas fadigas, chega a adquirir alguns conhecimentos, que em todo o caso se resentirão sempre da falta de alicerce e base, que fora mister haver dado aquelle edificio.

Parece, portanto, a despeito da indisputavel idoneidade da maior parte dos Professores d'estes nossos tempos, que he deficientissimo entre nós o ensino da Litteratura, e que conviria talvez elevar esta á cathegoria de Faculdade, comprehendendo um corpo scientifico de disciplinas, no sentido da resenha que acima deixo exposta.

CAPITULO II.

RAMOS DOS CONHECIMENTOS HUMANOS QUE CONSTITUEM A LITTERATURA;

MISSÃO D'ESTA, E INDICAÇÃO GERAL DO SEU ESTADO EM PORTUGAL.

Les lettres sont comme toutes les choses grandes et pures, comme la justice, comme la vertu; elles ont le privilège d'élever l'âme tout ensemble, et de la calmer. Elles inspirent à la fois l'enthousiasme et la paix.

VILLEMAIN.
Les lettres sont aussi la voix du peuple.

DE BARANTE.

A LITTERATURA, tal como a encarei no capitulo antecedente, pode até certo ponto confundir-se com a Erudição. Mas eu considero esta ultima como um arsenal, onde o litterato vae buscar os meios de interpretar as authores antigos, de descobrir a significação dos monumentos, de fixar as epochas, de caracterisar os usos e costumes dos povos que já desapparecerão, de deslindar finalmente os acontecimentos, que remotas eras nos legárão confusos.

D'est'arte a Erudição conserva uma estreita alliança com a Litteratura; he sua companheira, he sua auxiliar, embora tenha cada uma distinctos sacerdotes, diversos templos. Póde, todavia, conjecturar-se que, a não haver uma interrupção fatal nos progressos do espirito humano, realisar-se-ha a esperança de um escriptor estimavel, de que todos os litteratos venhão a ser eruditos, e todos os eruditos sejão litteratos,

A Critica, porém, he uma parte integrante da Litteratura. ¿De que serviria tomar de memoria as producções litterarias dos differentes tempos, se não nos fosse dado estremar as grandes bellezas-dos grandes defeitos? O mesmo author, e por vezes a mesma pagina nos apresentão o sublime ao lado do trivial, o verdadeiro ao lado do falso, o natural ao lado da affectação; e deveria, acaso, confundir-se a regra com a aberração? deveria, porventura, medir-se pela mesma bitola a razão, o bello moral, o gosto, e os seus contrarios ? «Voici merveille, dizia Montaigne, nous avons plus de poëtes que de juges et interprètes de poésie; il est plus aisé de la faire que de la cognoistre.» Exagerado foi um tanto o amigo de La Boétie, mas ficará sempre em pé o alto apreço em que tinha a Critica, essa filha da Razão, que em sendo guiada pelo facho de sua mãe, e desassombrada de mesquinhas ou odiosas influencias, presta relevantes serviços ao aperfeiçoamento do espirito humano. «Je ne sais en effet si dans les lettres, diz M. Villemain, après l'honneur de produire des beautés originales, il est un titre plus noble que de les admirer avec éloquence, d'en expliquer les merveilles, d'en augmenter le sentiment, d'en perpétuer l'imitation.»

Se pois he incontestavel o que fica dito a respeito da Critica, não menos devem considerar-se como partes integrantes da Litteratura —a Grammatica Philosophica, que presuppõe o conhecimento da ideologia—a Linguisticaa Poesia, na maior latitude dos seus accessorios e diversidade de fórmas-a Oratoria, com todos os generos da eloquencia religiosa, politica, e civil — a Historia, com os seus indispensaveis auxiliares, a geographia e a chronologia—a Moral religiosa e philosophica.

Antes de todos estes elementos figura a Historia Litteraria propriamente dita.

Mas como são professados entre nós estes importantissimos ramos da Litteratura? Ensina-se, acaso, estuda-se, aprende-se elementarmente, quanto baste para satisfazer as exigencias naturaes da sciencia, quanto pede e necessita a cultura do espirito e do coração? Não, por certo.

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E não se diga que fòra longo, difficil, e talvez improprio ensinar tão vastas disciplinas, e, sobre tudo, eleva-las no seu complexo á cathegoria de Faculdade... O argumento provaria de mais, por isso que o mesmo poderia dizer-se da sciencia do Direito, das Mathematicas, da Medicina, etc, etc... e, comtudo, os multiplices ramos d'essas vastas sciencias são extensa e fundamentalmente professados, como partes constituitivas de Faculdades, tão distinctas entre si, quanto recommendaveis todas.

-«Mas a Faculdade de Direito encerra a sciencia que resolve as transcendentes questões da organisação social, e protege a propriedade, a segurança e a riqueza dos povos. »

-«A Medicina encaminha-se a debellar as doenças, a defender a vida, a restabelecer a saude do homem. »

«As Mathematicas habilitão com sublimes calculos a medir os espaços, a arrebatar a natureza mysteriosos segredos, a atravessar a immensidade do oceano... »

«E quem não vê que todas essas Faculdades estão, com justificado titulo, n'uma cathegoria elevada, e devem, no interesse da humanidade, ser professadas na mais larga esphera, e amplissimo desenvolvimento?» -

Convenho... Mas quem poderá dizer que a Litteratura he menos vasta, menos philosophica, menos util a humanidade, do que essas Faculdades?

As expressões de Boas Lettras, Bellas Lettras, Humanidades, que o bom senso geral tem consagrado para designar a Litteratura, como que revelão a summa importancia d'este ramo dos conhecimentos humanos.

Já demonstrei no primeiro artigo a excellencia e utilidade da Litteratura; reforçarei, porém, agora o que alli disse, apresentando ponderações de outro genero.

Um homem que a morte roubou, ha pouco, ao amor e ao respeito do mundo, o immortal Chateaubriand, disse algures: « Les lettres sont l'éspérance pour entrer dans la vie, le repos pour en sortir.»

La Littérature est l'expression de la Société: assim exprimiu M. de Bonald um pensamento, que tem merecido a approvação geral, a ponto de que um dos melhores escriptores d'este seculo, Charles Nodier, não hesitou em escrever que esta sentença será sempre repetida em quanto houver uma sociedade e uma Litteratura, porque já mais uma verdade essencial foi revestida de uma formula tão diáfana.

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Um Litterato Francez de grande nome, M. Nisard, depois de fazer sentir que o estudo da Litteratura he essencialmente o estudo do espirito, da alma da nação, acrescenta estas significativas expressões:

=« Est-il besoin de parler de l'utilité d'une telle étude? « Qui ne sent à la première vue combien l'espèce de relâchement «dans le quel nous vivons, par des causes qui ne sont pas toutes « mauvaises, rend nécessaire une ferme croyance sur ce point? « Parmi tant de doutes qui nous travaillent, soit au sujet de cera taines influences longtemps souveraines, soit sur la forme même « de l'ordre social et politique sous le quel nous vivons, de quel « prix ne serait-il pas de ne point douter du moins de la chose ad'où dépend tout le reste, je veux dire la nature mème de l'es« prit de notre pays ? Outre que par les caractères des écrits qu'il « a toujours aimés, comme s'y étant toujours reconnu, nous pour«rons apprécier à toutes les époques ses véritables besoins, les a distinguer de ses caprices, et travailler avec connaissance à ré«gler son avenir d'après son passé. » (Hist. de la Littérature Française).

¿Não anda na boca de todos o aphorismo de Pope: «The proper study of mankind, is man

Eu abro um livro estimavel=De la Littérature au midi de l'Europe=e logo na primeira pagina, em que Sismondi explica o intento a que se propozera na sua obra, leio estas palavras:

quiz, sobre tudo, mostrar a influencia reciproca que « tem a historia politica e religiosa dos povos sobre a sua litte«ratura, e a d'esta sobre o seu caracter; fazer sentir a ligação «que teem as leis do justo e do honesto com as do bello; a alaliança, finalmente, que a virtude e a moral formão com a sen«sibilidade e a imaginação: como se pertendesse, d'alguma sorte, « escrever a historia do espirito humano em todos os povos in« dependentes, e mostrá-lo sujeito em toda a parte a phases a regulares e correspondentes. »

E com effeito, quem não vê que as bellas lettras, do mesmo modo que as outras sciencias, em sendo estudadas e comprehendidas devidamente, se tornão, para me servir de uma expressão já consagrada, os instrumentos universaes da razão, da virtude e da felicidade?

Liiteris ad excolendam virtutem adjuvamur, disse Cicero; e do mesmo sabio philosopho he o famoso elogio das Lettras, que está gravado na memoria de todos: Studia adolescentiam

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