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¿Qual plano de trabalho traçou o distincto author do Glossario? Qual principio regulador seguío nos seus juizos criticos?

«Para executarmos este proposito, diz elle, lemos muitas obras «dos nossos modernos escriptores, assim traduzidas do francez, «como originaes, que correm impressas; e nos servimos das ob«servações, que já tinhamos feito, ou de novo fizemos sobre a sua «linguagem, bem como sobre os vocabulos ou phrases mais usa«das na conversação familiar, nos escriptos não impressos, e nos asermões, e outros discursos das pessoas litteratas, e dadas á alição dos livros francezes, comparando-as com a locução dos a nossos classicos, e examinando-as á vista dos diccionarios da anossa lingua..... Em geral tivemos sempre diante dos olhos «esta regra:que sendo o vocabulo de boa origem, derivado «conforme a analogia, e ao mesmo tempo expressivo, e harmoanico, se podia adoptar e trazer a nossa lingua, ainda quando anesta houvesse algum synonimo, que exprimisse o mesmo conaceito.»

A uma ponderosa duvida dava logar o assumpto proposto pela Academia, não determinando a epocha desde a qual a nossa linguagem devia dizer-se moderna. O illustre author do «Glossario, » attendendo a que nos principios do seculo xviii, e com a reinado do Sr. rei D. João v começou a restauração da nossa litteratura, e consequentemente o estudo e frequente lição dos livros francezes —resolveu contar desde esse ponto a idade moderna da nossa lingua.

Não consistem os gallicismos somente nos vocabulos francezes introduzidos na lingua portugueza contra o antigo e bom uso, e principalmente contra o genio della; mas tambem em certos modos de fallar, que embora conservem as palavras portuguezas, alterão todavia a forma original do idioma, e lhe dão um colorido estrangeiro, e alheio da sua natureza — Conseguintemente, o «Glossario » seria muito imperfeito, se não indicasse tambem, como effectivamente indica, esses modos de fallar, viciosos em quanto a syntaxe, e mal soantes na nossa lingua.

Não teria a lição dos livros francezes sido prejudicial, debaixo do ponto de vista linguistico, se com ella não concorressem o fatal esquecimento em que deixamos os nossos classicos, e a falta de um bom Diccionario de ambas as linguas. Concorrendo, porém, simultaneamente estas causas, foi consequencia necessaria, que não estando os leitores sufficientemente premunidos com o estudo e conhecimento da sua propria lingua, e não podendo perceber com clareza e precisão a mutua correspondencia de vocabulos e phrases, e o differente caminho que cada uma das duas linguas requer para explicar os seus conceitos, se introduzírão os gallicismos, — terrivel cancro que hia devorando a nossa boa linguagem, e tornando-a desengraçada, barbara e mal soante.

-Quero dar que em francez hajão formosas
Expressões curtas, phrases elegantes;
Mas indoles diff'rentes teem as linguas;
Nem toda a phrase a toda a lingua ajusta.

Assim se exprimio o illustre poeta portuguez, que no proprio seio da França pugnou valente em defeza da nossa lingua, e fez cruenta e desabrida guerra aos que, sem tino, afeiárão

O gesto airoso do idioma luso.

E com effeito, cada uma das linguas tem um genio particular, um modo especial de exprimir os conceitos, uma elegancia propria, diverso systema de tecer o discurso, distincta eufonia; donde vem que será absurdo introduzir em uma lingua, sem pausado exame e séria reflexão, os vocabulos, as phrases, e os idiotismos de outra :

Ponde um bello nariz alvo de neve
N'uma formosa cara trigueirinha;

O nariz alvo no moreno rosto,
Tanto não é belleza, que é defeito.

He de ponderar que não permanecendo as linguas sempre no mesmo estado, mas antes soffrendo continuas alterações, póde dar-se o caso de haver maior similhança entre ellas em determinadas epochas, e pelo volver dos tempos apresentarem já differenças muito caracteristicas. «Não he de admirar, diz um erua dito philologo , que nos viesse tanta copia de termos da linagua franceza, porque no tempo antigo era esta lingua mais co

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1 0 Academico Antonio das Neves Pereira - Ensaio Critico (Mem. de Litt. da Ac. R. das Sienc.)

aherente com a nossa do que hoje. Os francezes dizião, como os «hespanhoes, sique, por assim que, de modo que, de sorte que « etc. Souloir era em francez, como para nós soer, ou soher, do a latim solere; e os francezes deixarão aquelle termo quasi ao « mesmo tempo, que nos deixamos o nosso, em logar do qual « tomárão, s'accoutumer, e étre accoutumé, costumar ou ser cos«tumado. Dizião prouesses, como nós proezas, em logar de gran« des actions, de que hoje usão; moustier, como nós mosteiro: « moult do latim multum: ou como os nossos antigos moito: « Certes, como nos ha pouco diziamos certo, por certamente, ou a na verdade. »

Além disto, he mister saber que o Conde D. Henrique veio de França com sua familia e tropas, e que esta colonia franceza introduzio entre nós muitos vocabulos e phrases, que se naturalisárão e encorporárão no idioma portuguez. A rainha D. Mafalda trouxe muitas damas, e cavalleiros francezes; aportarão depois as nossas praias os cruzados, que ajudarão o Sr. D. Affonso Henriques a tomar Lisboa, e se estabelecerão em Portugal, povoando varias villas e logares: e mais tarde entrou em Portugal D. Affonso il com sua mulher a condessa de Bolonha, D. Mathilde, trazendo grande comitiva franceza, assim de senhoras da sua côrte, como de tropas para sua defeza. O brilhante reinado de D. Ioão I, esse periodo glorioso da nossa historia, foi tambem uma epocha em que a lingua franceza floreceu em Portugal. «Era naquelle tempo, diz o nosso elegante Fr. Luiz de Sousa, a lingua franceza estimada e corrente entre os principes por corteza e politica. » E com effeito, este mesmo apuradissimo classico, na magnifica descripção do Convento da Batalba, menciona todas as divisas de D. João i e de seus preclaros filhos, sendo para notar que todas as lettras erão em francez. A de D. João i era: il me plait, pour bien;—a do Infante D. Pedro (Duque de Coimbra) désir;-a do Infante D. Henrique, talaint de bien faire;-a do Infante D. João (Mestre de S. Thiago) je ai bien raison;—a do Infante D. Fernando, le bien me plaît. Todos estes acontecimentos forão parte para que se introduzissem na nossa lingua muitos termos de origem franceza.

Se porém naquelles tempos encontramos um grande numero de vocabulos, que mostrão quanta similhança havia entre ambas as linguas, he certo que posteriormente tomou a nossa lingua outro caracter, e se tornou inteiramente diversa, por maneira que não pode já hoje haver a mesma liberdade de introducção

de termos e phrases no idioma portuguez.- Exemplifiquemos isto como uma phrase citada no «Glossario » Templos, cujas torres sobem, e se elanção para Deus. Esta phrase he a traducção litteral de outra correspondente em francez: Des temples, dont les tours montent et s'élancent vers Dieu. ¿Poderemos acaso trazer para a nossa lingua o verbo elançar-se, embora seja muito energico e expressivo no francez o correspondente s'élancer? Que necessidade temos de um tal vocabulo? Em qual dos nossos bons escriptores o encontramos? Devemos acaso preferil-o aos termos portuguezés: arremeçar-se, abalançar-se, arrojar-se, talvez arremeter, e na phrase citada, subir as nuvens, focar o céo, ou ir ás nuvens e tocar o céo? Não fica por ventura mais elegante, mais verdadeiramente portugueza essa phrase, dizendo-se: Templos, cujas torres vão ás nuvens e tocão o céo?

Necessitamos pois hoje de uma boa carta, onde venbão marcados os escolhos e baixios em que têem náufragado pilotos inexpertos; e por ventura encontramos essa carta no «Glossario»; interessante livro de que muito careciamos, e que pode servir de seguro guia aos que présão a pureza da nossa lingua.

He de toda a justiça pagar nesta occasião um tributo de reconhecimento ao já citado Francisco Manuel do Nascimento, pelos relevantes serviços que neste particular prestou a nossa lingua, pelejando corajoso e incansavel,-- direi até-enthusiasta e apaixonado, contra os que em traducções, ou em obras originaes, desfigurárão a natural formosura e galhardia de tão rico idioma. Em todas as suas obras deu mostras do quanto tomou a peito essa cruzada de nova especie, mas sobre tudo he notavel e digna de ser lida uma e muitas vezes a sua inimitavel « Epistola » sobre a arte poetica e lingua portugueza.--Honrosa e muito distincta menção devemos fazer tambem do excellente trabalho de philologia que acima apontámos, e vem a ser: Ensaio critico, sobre qual seja o uso prudente das palavras de que se servirão os nossos bons escriptores do seculo xv e xvi, e deixárão esquecer os que depois se seguirão até ao presente, por Antonio das Neves Pereira.

Neste precioso trabalho, cuja leitura não podemos recommendar assaz, consagra o erudito author dois extensos paragraphos ao assumpto de que vamos tratando, e são o 3.° e 4. do capitulo 3.°, um dos quaes tem por titulo: Do abuso das palavras, e idiotismos francezes, que se tem introduzido na lingua portugueza-e o outro: Origem do abuso de palavras, e idiotismos francezes, que se tem introduzido na lingua portugueza.

Para bem se avaliar o que a este respeito sente o judicioso academico, bastará transcrever o seguinte trecho: «He indizivel ao que se tem accumulado de francezias, não só em traduções « portuguezas, mas até em obras de varios generos; de forma que a mais necessita a mocidade portugueza hoje de diccionario fran« cez para entender os livros da lingua materna, do que do dic« cionario da mesma lingua.»

E note-se que he tanto mais ponderoso este juizo, quanto o erudito critico, adoptando o conceito de Ferreira:

Geralmente foi dada boa licença
As linguas: umas as outras se roubarão:
Só o bom sprito faz a differença;

entende que he direito commum nas linguas da Europa o soccorrerem-se e ajudarem-se mutuamente, e que mais prompto e facil recurso temos nas linguas modernas para a provisão de vocabulos, pela communicação que com ellas temos, do que na lingua latina, que he morta ha muito tempo. No que respeita á lingua portugueza, diz elle, tanto menos se pode vituperar, que naturalizemos varios vocabulos da lingua franceza, visto que della temos muitos e antiquissimos, que nos vierão com a monarchia, e outros que já estavão de assento antes della— parte dos quaes estão antiquados, parte ainda se conservão de posse nos monumentos dos nossos insignes escriptores, e na mesma linguagem

commum.

He pois este critico quem lamenta as nocivas mudanças que á pureza da nossa lingua, a sua elegancia e energia trouxerão as francezias, substituindo-se, sem necessidade e sem escolha, a excellentes vocabulos portuguezes uma alluvião de expressões estranhas, que nem nascêrão para nós, nem se ajustão com as

nossas.

¿Cemo se introduzio nos nossos dominios essa fatal epidemia dos gallicismos ? «A maior parte, diz o author do Ensaio Cri«tico, dos que se dérão ao estudo dessa lingua (franceza), era a gente qne nunca estudou a lingua portugueza, nem a lerão nos ( nossos authores classicos....... Não tendo a mão os termos a proprios, e elegantes da nossa lingua, não havia coisa mais fa«cil, que aportuguezar qualquer termo, qualquer phrase, que se

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