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E não se pense que sómente obteriamos este resultado nas obras de Camões; todos os nossos classicos, todos os nossos livros, toda a nossa linguagem do uso vulgar nos offerecerião os mesmos argumentos. Com razão, pois, diz o erudito author anonymo da Refutação: «Com effeito, eu convido o sabio author da « memoria a abrir o primeiro classico que lhe cahir debaixo da a mão, e a lêr uma longa pagina, e que diga depois 'se a im<< mensa maioria das palavras não são latinas, ou derivadas ou « compostas de raizes latinas. >>

Com a mesma razão exprime o citado Denina a seguinte opinião: «Le fond de la langue portugaise est autant ou plus alatin encore, que celui des autres langues méridionales, et « me de l'italienne....... On pourrait donner une longue liste « de noms, de verbes, d'adverbes que le Portugais a retenus du « latin, et qui ne sont restés ni à l'italien, ni au Français, ni à « l'Espagnol. »

¿Qual he a opinião mais geralmente estabelecida a respeito das quatro linguas do meio dia da Europa, Franceza, Italiana, Castelhana e Portugueza ? Respondamos pelas proprias palavras de Denina: Toutes ces langues au reste sont de leur fond tellement formées de la latine, qu'on pourrait composer non seulement de petits discours, mais des ouvrages volumineux, sans employer un seul mot qui n'eut pas sa racine dans le latin. Pois bem; a opinião mais geral he a da filiação latina a respeito de todas as quatro linguas, e de todas ellas he a portugueza a que conservou maior numero de palavras daquella origem, a que menos as desfigurou, e a que quasi na totalidade as conservou do mesmo modo que as recebêra da originaria fonte. ¿E poderemos acaso hesitar ainda sobre a filiação latina da nossa lingua?

Mas as formas grammaticaes, e a syntaxe das linguas latina e portugueza diversificão entre si.

A este reparo responde o erudito author anonymo da «Refutação: »

«Se não existisse differença nenhuma entre as duas linguas, « então o portuguez não seria filho do latim, seria o mesmo laa tim, pois que essas differenças é que fazem que ellas sejam « duas linguas distinctas; e os pontos de similhança, que uma a seja procedente da outra. Ora estes pontos não se limitam só a as palavras communs aos dois idiomas; estendem-se as con« strucções, á syntaxe, e a tudo que não depende dos casos. ¿Quan«do se diz: Mundus a Domino constitutus est, in principio crea

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kvit Deus cælum et terram, templum de marmore ponam, pastor « ab Amphryso, não se diz assim mesmo em portuguez? a cons« trucção é por ventura differente? A transposição em que tam« bem se faz grande reparo, aonde está ella nas obras de Santo « Agostinho, Eutropio, Sulpicio Severo, e muitos outros que é «inutil referir, e sobre tudo como se prova que ella tivesse lo«gar na lingua popular, tanto em Roma como nas provincias?»

3.a Parte. - Falla-se em lingua popular, e he esta a occasião opportuna de averiguar, se quando se diz que o portuguez provém do latim, se entende o latim sabio de Cicero e de Cesar, ou antes o popular ou rustico, tal qual era fallado pelo povo de Roma e das Provincias.

Hallam na sua Historia da Europa na idade media, fallando da lingua latina, diz que ella nunca foi lingua vulgar na GrãBretanha, a despeito da opinião de Gibbon, o qual cita a authoridade de Tacito (Vida de Cn. Agric.) para demonstrar que a lirgua de Virgilio e Cicero, ainda que com uma certa corrupção, se generalisou de tal modo na Grã-Bretanha, que apenas os rusticos e os montanhezes conservavão alguns vestigios dos idiomas punicos ou celticos; mas apenas uma passagem de Tacito poderia até certo ponto justificar Gibbon, e he aquella em que se diz que Agricola procurou inspirar aos filhos dos chefes bretões o gosto dos estudos liberaes, e que tão feliz fôra neste empenho, incitando-os com elogios dados a proposito, ut qui modo linguam romanam abnuebant, eloquentiam concupiscerent: daqui, porém, a adopção do latim como lingua nacional vae uma distancia infinita.

Se, porém, no conceito de Hallam, os romanos não estabelecérão a sua lingua na Inglaterra, confessa todavia que conseguirão isso cabalmente nas Gallias e nas Hespanhas, por meio de uma mudança gradual, e não por uma innovação repentina e arbitraria; e depois accrescenta estas mui significativas palavras: «Mais, de ce que les habitants de ces provinces finirent « par adopter si bien ce latin pour leur langue naturelle, qu'on ane pouvait peut-être découvrir dans leur dialecte usuel que « quelques légères traces de leur ancien idiome celtique, il ne « s'ensuit pas qu'ils parlassent cette nouvelle langue aussi pure«ment que les Italiens, et bien moins encore que leur prononcia«tion correspondit aux sons écrits avec cette précision que nous « considérons comme essentielle à l'expression du latin.»

Cre-se, e he facil demonstrar, que ainda nos seculos da mais pura latinidade, existia alguma differença entre a lingua escripta e a lingua fallada, nem outra coisa podia succeder, visto como a severidade das regras da pronunciação necessariamente havia de ser modificada pela rapidez do discurso, maiormente na conversação, embora não o fosse nos discursos publicos, em que se empregavão escrupulosamente os preceitos dos rhetoricos. Ora, se o rigor das regras grammaticaes se afrouxava na conversação de pessoas polidas, por força de maior razão se daria esta circumstancia na linguagem do povo de Roma e de Italia, e ainda muito mais na do povo das provincias afastadas.

Ainda isto não he tudo. Nos proprios tempos da mais pura latinidade, diz Hallam, servião-se os habitantes de Roma de um grande numero de termos, que hoje consideramos como barbaros, e de um grande numero de locuções que hoje rejeitariamos como modernas. Nem se pode conceber que fosse do uso geral essa syntaxe extremamente complicada, elliptica, obscura, e avara das partes destinadas a ligar o discurso, --syntaxe a que apenas se conformavão os mais apurados escriptores. Seria difficil particularisar hoje com individuação as differenças existentes entre o latim do povo e a linguagem polida, castigada e sabia de

o Cicero e Seneca; mas póde affirmar-se affoitamente que muitas palavras dos idiomas latinos modernos, que nos parecem estranhas á etymologia latina, se derivão de expressões que estavão em uso no seculo de Augusto, bem como, que certas locuções repugnantes a delicadeza dos entendidos, andavão no uso da lingua vulgar, e de lá passarão para o francez, italiano, etc. taes como certas proposições para indicar a relação entre duas partes da phrase, relação que um classico exprimiria por meio de inflexões.

Além do exemplo das proposições, apresenta Hallam outros, e nesta parte traduziremos seguidamente o que elle diz, porque a sua doutrina confirma e esclarece alguns pontos que tocámos artigos antecedentes.

«A difficuldade de marcar bem a distincção dos tempos paa rece ter dado origem ao verbo auxiliar activo, sendo possivel «que o fossem buscar ás linguas teutonicas dos barbaros, e que « estes e os nacionaes o adaptassem a palavras de origem latina. « A decomposição facil de todas as especies de tempo da voz pasa siva produziu o auxiliar passivo, que os gregos por vezes em« pregavão, e de que os latinos usárão mais frequentemente.a Não se descobre tão facilmente a justeza da applicação dos ac

«tivos habeo e teneo, um ou outro dos quaes, e até ambos jun«tamente, forão adoptados nas linguas modernas como auxilia« res do verbo. Ha todavia casos em que esta decomposição se « explica muito bem, e póde suppôr-se que povos, pouco atten«tos á etymologia ou á correcção da linguagem, applicarão, por «uma grosseira analogia, o mesmo verbo em casos, em que ria gorosamente não devia ser empregado. »

« Depois das mudanças relativas á pronunciação, e a substituição dos auxiliares ás inflexões do verbo, o emprego dos <artigos definido e indefinidos antes dos nomes parece ter sido «o passo mais agigantado da transição do latim para as linguas « derivadas. O latim he, creio eu, a unica lingua que não teve <artigos, e esta falta a que os romanos estavão habituados, haa via de ser um obstaculo insuperavel a povos que tinbão neces«sidade de traduzir o seu idioma nacional em latim. He de crer «que os habitantes das provincias romanas empregassem os ter« mos unus, ipse, ou ille para supprirem o artigo ainda que gros« seiramente; e que depois da introducção da grammatica das « bordas teutonicas, adoptassem uma corrupção que enchia uma «lacuna real e consideravel.

(..... Antes de haver o latim cessado de ser lingua viva, a já as leis da quantidade havião sido olvidadas, passando a ser < substituidas pela pronunciação accentuada... Sirvão de exemplo « os seguintes versos de Commodianus, author christão, que vi« via antes do fim do seculo iii, segundo uns, ou no reinado de « Constantino, segundo outros:

Proefatio nostra viam erranti demonstrat,
Respectumque bonum, cum venerit sæculi meta,
OEternum fieri, quod discredunt inscia corda.
Ego similiter erravi tempore multo,
Fana prosequendo, parentibus insciis ipsis.
Abstuli me tandem indé, legendo de lege.
Testificor Dominum, doleo, proh! civica turba
Inscia quod perdit, pergens deos quærere vanos.
Ob ea perdoctus ignaros instruo verum.

«He assás provavel que Commodianus escrevia em Africa, a provincia onde a pureza do latim estava mais alterada. No fim «do iv seculo atacou S. Agostinho os Donatistas, seus inimigos «de antiga data, com as mesmas armas quasi que Commodianus a tinha empregado contra o paganismo; mas já a esse tempo a « melodia elegante e variada do hexametro estava fora do alcance « do vulgo, e por isso adoptou outra rima:

Abundantia peccatorum solet sratres conturbare;
Propter hoc Dominus noster voluit nos præmonere,
Comparans regnum cælorum reticulo misso in mare,
Congreganti multos pisces, omnes genus hinc et inde,
Quos cùm traxissent ad littus, tunc coeperunt separare,
Bonos in vasa miserunt, reliquos malos in mare.

«A rapsodia que deixamos estampada no final do trecho an«tecedente, parece ser muito inferior ao talento de S. Agostinho, «mas em todo o caso não é muito posterior ao seu tempo.»

Vamos confirmar esta doutrina com algumas citações do eloquente M. Villemain.

«Constatons d'abord un premier fait, c'est que la langue alatine était par sa nature, par ses formes savantes et comple«xes, promptement exposée à subir de graves altérations. Une «langue synthétique, comme l'appelle M. Schlegel, une langue «qui ne procède point par des moyens simples, analogues aux abesoins rigoureux des idées, mais qui, dans sa construction «habilement systématique, offre des cas nombreux, des désinenaces variées, des verbes multiples dans leurs temps et dans leurs «modes, des inversions prolongées, une syntaxe artistiquement acombinée, une langue ainsi faite, à son plus beau période, est «susceptible d'une grande perfection oratoire et poétique. Mais '«sitôt

que la barbarie et l'ignorance viennent la heurter, ce ma«gnifique édifice doit rapidement se dégrader et se détruire. «Pour changer ma comparaison, c'est un instrument musical, adélicat, compliqué, qui ne pouvait être touché que par un ar«tiste, et qui se dérange ou se brise sous des mains grossières «et maladroites.)

«Que la langue latine, comme la langue grecque, ait été «difficile pour ceux même qui la parlaient de naissance; nul «doute à cet égard.»— E aqui adduz M. Villemain, como prova,

-E o grande numero de tractados que havia sobre as declinações dos nomes e conjugações dos verbos, alguns sobre a analogia das palavras, sobre as locuções duvidosas-o longo e escrupuloso estudo que se consagrava á grammatica-diversidade de opiniões sobre a orthographia, e conclue:--- «Ainsi, la langue

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