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que mais especialmente se referem a questão da origem da nossa lingua.

LES ÉLÉMENS PRIMITIFS DES LANGUES PAR L'ABBÉ BERGIER. Besançon. 1837.

O S 4.° da 6.* Dissertação trata da origem da lingua franceza, e de averiguar se ella descende do latim.

Empregaremos, quanto sør compativel com o breve resumo que vamos dar, as proprias expressões do author, para não roubarmos aos seus argumentos a força que poderem ter.

Forão latinos os prégadores que estabelecerão a religião christā; e dahi vem que os termos francezes, relativos a religião, forão tirados da lingua latina.

Tambem não ha duvida em que os termos das sciencias e bellas artes são latinos.

Mas não são latinos os termos relativos ás artes mecanicas, á arte militar e á navegação; nem tão pouco o são os termos simplices, as ligações do discurso, as palavras que exprimem as cousas da primeira necessidade, ou os usos communs da vida.

A syntaxe da lingua franceza nada tem de commum com a da latina; circumstancia ponderosa que torna bem suspeita a genealogia que pretende dar-se ao francez.

Crê-se que nos cinco seculos da dominação romana o latim absorveu completamente a linguagem das Gallias; mas, sem oppôr a essa opinião os monumentos historicos, como já fez M. Bullet, nas suas Memorias sobre a Lingua Celtica, apresenta M. Bergier a seguinte prova de facto em contrario: Ha quasi oitocentos annos que o francez começou a formar-se, e a ser fallado nas Gallias, sem que tenha supplantado o patois de diversas provincias, succedendo haver ainda em França muita gente que não sabe sequer quatro phrases francezas. -- Logo, subsistião esses patois no tempo em que as pessoas polidas fallavão latim; logo o latim não fez em 500 annos o que o francez não pôde fazer em oito ou nove seculos; logo, os camponezes fallão ainda a mesma algaravia, de que seus paes se servião antes da conquista dos Romanos e dos Francos.

Quando os grammaticos encontrão um termo francez semeIhante a um latino, concluem immediatamente que o primeiro descende do segundo; mas fora mister provar, antes de tudo, que aquelle termo não se encontra em nenhum dos patois que se fallão em França.

As colonias que povoárão a Italia são da mesma origem daquellas que vierão habitar as Gallias; tendo uma linguagem commum, veio esta a constituir a essencia da lingua latina, do mesmo modo que da grega. Seria para admirar, que estas duas linguas não tivessem termos semelhantes; e por quanto os paes fallárão a mesma lingua, he natural que os filhos possão ainda entenderse, sem pedirem de emprestimo palavras uns aos outros.

¿Como explicar a existencia de termos gregos e hebraicos no patois dos montanhezes de Cevennas e dos Vosges, e a construcção hebraica das suas phrases? A historia do genero humano, e da propagação das linguas encerrão a explicação.

Quando os etymologistas dizem que tal termo vem do latim, tal outro do grego, etc.; he ainda necessario que elles nos digão de qual lingua os Latinos, etc., receberão os seus.

Eis-aqui como M. Bergier conclue:

=«La question de l'origine du françois, si long-temps agitée, est donc à proprement parler une affaire de calcul. Y a-t-il dans cette langue un plus grand nombre de termes tirés des patois, qu'il n'y en a de dérivés du latin? Si la pluralité se trouve dans les patois, leur construction étant plus semblable au françois que celui-ci au latin, la cause est jugée en faveur des patois; ils sont la vraie source de notre langue. Jusqu'à ce que la supputation ait été faite, le procès demeure indécis, et nous devons nous borner à dire, comme les Romains, que nôtre langage est formé en partie d'une langue polie, et en partie d'un jargon barbare. Mais ce jargon même a été bâti sur le même fonds que les langues les plus élégantes de l'univers, sur les monosyllabes dont se servoient les aieux du genre humain.»=

ANTONIO RIBEIRO DOS Santos pretendia, ao que parece, escrever uma obra sobre as Origens da Lingua Portugueza, pois que entre os seus manuscriptos se encontrão varios volumes, nos quaes hia reunindo apontamentos sobre esta materia. Desgraçadamente, porém, o que existe a semelhante respeito, na Bibliotheca Riberiana, he informe, e pouco aproveitavel; sendo aliás de crer que o laborioso Author, se a vida lhe não faltasse, teria augmentado esses apontamentos, e tirado d'elles o partido que levava em vista.

Ainda assim, temos por indispensavel indicar aqui os Mss., que mais particularmente se referem a questão da origem da nossa lingua.

ORIGENS LATINAS DA LINGUA DE ESPANHA. -Neste volume, a que o Author não tinha dado a ultima demão, apresenta varios argumentos para contrariar a filiação latina das linguas de Hespanha, os quaes pela maior parte se encontrão, dispostos em melhor ordem, na Memoria de D. Francisco de S. Luiz, que já extractamos. O Author estabelece as seguintes asserções: Muitas palavras havidas por latinas são primitivas da Natureza; -muitas vierão d'outras fontes, do grego, do celtico;- muitas receberão os latinos de nós, e não nós d'elles, em cousas de agricultura e de milicia; muitas só são do latim barbaro da idade media, palavras não latinas de nascimento, mas sim adoptadas de varias linguas dos povos barbaros, ás quaes se dava terminação ou inflexão latina; -ha na nossa lingua uma immensa quantidade de palavras, que não são latinas, nem compostas ou derivadas delle; — ha palavras que não são realmente latinas, posto que derivadas ou compostas d'elle;- e finalmente ha uma extraordinaria somma de palavras, que tomamos do latim, depois da nossa lingua já estar formada. -Seguem-se depois os argumentos relativos á syntaxe, adverbios, etc., etc., que já vimos na Memoria de D. Francisco de S. Luiz.

NOTICIAS DA LINGUA CELTICA E DE SEUS DIVERSOS DIALECTOS. — Na Introducção estabelece o Author as duas seguintes asserções:-1.° «A maior parte dos povos de Espanha, anteriores a Francos, Gregos e Romanos, era Celtica; e Celtica era portanto a sua Lingua, como o era a sua gente.» -2.°«No Celtico achamos, ou a explicação, e razão da maior parte dos antigos vocabulos de Espanha, ou a sua analogia e semelhança; o que mostra ainda, independentemente daquella prova, que o antigo idioma do paiz era de sua origem celtico.»

ORIGENS CELTICAS DA ANTIGA LINGUA GERAL DE ESPANIA E DE SEUS ACTUAES DIALECTOS.

Com esta epigraphe: Antiquam exquerere matremContém um Diccionario Harmonico-Analogico do Celtico Espanhol.

Diz o Author na Introducção: « Depois do vocabulario Harmonico-Hispano-Celtico, apresentamos outro simplesmente Analogico, em que não já pelas radicaes, mas só pela mera analogia e conformidade ou semelhança mechanica dos termos, independentemente da significação, se mostra a filiação e affinidade Celtica dos antigos vocabulos de Espanha.

(Por augmentar e acabar, diz uma nota escripta pela propria letra de Antonio Ribeiro dos Santos; e o mesmo pode dizerse a respeito de quasi todos os manuscriptos, de que se compõe a Bibliotheca Riberiana: pelo que nos abstemos de indicar outros que ali encontrámos.)

S 4.

CONSIDERAÇÕES ETHNOGRAPHICAS, COM REFERENCIA Á LINGUA PORTUGUEZA.

Jn

mores, romanam.

in linguam, in jura, in ditionem cessere

Inscrip. Lapid.

Romanosque omnes fieri,
Quos Tagus aurifluens, quos magnus inundat Hiberus

AURELIUS PRUDENTIUS CLEMENS.

Promettemos no artigo antecedente examinar algumas questoes ethnographicas, que se enlação com o assumpto da filiação da nossa lingua. Damos hoje começo a essa tarefa.

Os leitores sabem já que o nosso proposito he antes indicar as fontes de doutrina, do que escrever um Tratado ex professo; e por isso esperamos que nos desculpem a importunidade das innumeras citações, que fazemos, em attenção a natureza especial do nosso trabalho.

O Sr. S. Luiz concluiu de um certo numero de provas historicas, «que he difficil introduzir em um povo numeroso a total a mudança de linguagem, ou ainda alterar as suas formas carac« teristicas; e por outro lado, considerando que todos os philo«sophos reconhecem a intima e essencial ligação que tem a lin«guagem com o pensamento, e a forma externa do discurso com ao quadro interno das ideas, de que elle é a expressão », concluiu que se lhe affigurava impossivel, não só difficil, a mudança total da linguagem antiga portugueza para a latina, ou (o que vem a ser o mesmo) o total esquecimento e abandono da primeira para adoptar a segunda.

He, porém, certo que os factos historicos, os principios ethnographicos, e o sentir de mui competentes philologicos, contrarião inteiramente estas asserções.

Um profundo philologo, M. Bonamy, em uma Memoria in

serta no 24.0 vol. das da Academia das Inscripções, exprime-se d'este modo: « Les Romains, après avoir fait la conquête des «Gaules, y introduisirent aussi l'usage de la langue Latine. « C'était un des principes de la politique de ce peuple d'imposer a aux Nations vaincues, qu'il appellait barbares, l'obligation de « parler sa Langue, après leur avoir imposé celle de lui obéir. (-Opera data est, dit St. Augustinut imperiosa civitas non « solum jugum, verum etiam linguam suam domitis gentibus per

pacem sociatis impeneret.— J'ai dit les Nations barbares, pour « les distinguer de celles qui parlaient la Langue Grecque; cel« les-ci conservèrent toujours l'usage de leur langue, quoique les a magistrats Romains se fussent fait un devoir, même des temps « de la République, de ne leur répondre dans la même Langue, a lors même que ces magistrats entendaient le Grec.—Illud a quoque magna perseverantia custodiebant ne Græcis unquam « nisi Latine responsa darent, quin etiam... por interpretem lo«qui cogebant, non in urbe tantum nostra, se etiam in Græcia a et Asia. Quo scilicet Latinæ vocis honos per omnes gentes veu nerabilior diffunderetur.» 2

E a pag. 592 diz: «La splendeur de Rome, l'étendue de son « empire, les actions brillantes des Romains, leurs loix si sages «et si sensées, cet ordre admirable pour la police qui régnait «dans tous les ordres de l'état, ces dépenses immenses, non seu« lement pour la décoration des villes, mais encore pour l'utilité a publique, comme les aqueducs et les grands chemins qui tra« versaient tout l'empire, (poderia accrescentar=e as magnita cas pontes e outras muitas obras=) tout cela était bien capa« ble de faire impression sur des hommes tels que les Gaulois, a propres à sentir et à admirer ce qui était vraiment grand.»

E com effeito, já em tempo de Aulo-Gellio os hispano-romanos consideravão como sua a lingua latina. O famoso author das Noites Atticas refere no Liv. 19, cap. 9, uma anecdota litteraria, que põe na maior evidencia esta verdade. Um mancebo da Asia, nobre, rico e folgazão, reuniu em um banquete, para festejar os seus annos, os seus amigos e mestres, entre os quaes estava tambem Antonio Juliano, hespanhol de nação, e distincto professor de eloquencia em Roma. Quando cessou o banquete, começarão alguns dos convidados a recitar versos de Anacreonte

1 De Civitate Dei, 1. 19, c. 1. 2 Valer. Max. I. 11, c. 2, n. 2.

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