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dos Santos portuguezes, Canonisados ou Beatificados, mas tambem, e em grande parte, dos Varões de eminente virtude.

Para compôr esta vasta e muito erudita obra, supposto que nem sempre de să critica, recorreu Cardozo ás seguintes fontes : Martyrologios e Breviarios; Padres da Igreja, e Authores ecclesiasticos, que escreverão vidas de Santos; Chronicas das Religiões; Escriptores castelhanos e portuguezes, sendo entre os ultimos: André de Rezende (De antiquitatibus Lusitaniæ); Gaspar Barreiros (Chorographia); João de Barros, e Diogo do Couto (Decadas); Fr. !mador Arraez (Dialogos); Fr. João dos Santos (Ethiopia Oriental); Pedro de Mariz (Dialogos de varia historia); Duarte Nunes de Leão (Chronicas, e Descripção de Portugal); Fr. Bernardo de Brito, e Fr. Antonio Brandão (Monarquia Lusitana); Gaspar Estaço (Antiguidades); P. Antonio de Vasconcellos (Anacephaleosis dos Reis); e finalmente recorreu aos archivos, para examinar manuscriptos.'

Os commentarios a cada um dos dias do mez são de uma grande erudição, e muito instructivos sobre as cousas do nosso paiz.

Não obstante a natureza especial da Obra, encontrão-se alli algumas noticias historico-litterarias de muito proveito.

Repetidas vezes allude Cardozo a uma Historia Litteraria, que compoz, com o titulo de=«Bibliotheca Lusitana)=a qual necessariamente havia de ser muito rica de noticias, e abundante fonte de curiosos esclarecimentos.— Diogo Barbosa Machado não a pôde alcançar, mas assevera que Nicolao Antonio a vira.

-MÉMOIRES HISTORIQUES, POLITIQUES, ET LITTÉRAIRES, CONCERNANT LE PORTUGAL, ET TOUTES SES DÉPENDENCES: AVEC LA BIBLIOTHÈQUE DES ÉCRIVAINS ET DES HISTORIENS DE CES ÉTATS - par M. le Chevalier d'Oliveira, Gentil-Homme Portugais. Haya. 1743.

A intenção do Cavalheiro d'Oliveira foi reunir tudo quanto os estrangeiros havião publicado até ao seu tempo, a respeito de Portugal, quer em bem, quer em mal, fazendo do seu trabalho uma excellente collecção de curiosas noticias,

que,
andando

espa

1 Mencionámos tão especificadamente os Authores a que recorreu Cardozo, por isso que pretendemos apontar todas as fontes da Historia Litteraria de Portugal; e assim succede que recommendemos aquelles Authores, alli indicados, embora d'elles não façamos especial menção.

thadas por tantos livros, de pouco serv em., No ultimo Capitulo de cada volume traz elle uma indicação de todos os Authores portuguezes, e dos de todas as nações, que expressamente escreverão acerca de Portugal, e suas possessões, com a noticia da maior parte dos manuscriptos e dos livros anonymos, relativos á Historia de Portugal. Esta ultima parte fornece algum subsidio para a Historia Litteraria.

-Anno Historico, Diario Portuguez, noticia abreviada de pessoas grandes, e cousas notaveis de Portugal — pelo Padre Mestre, Francisco de Santa Maria. Publicado por Lourenço Justinianno da Annunciação. 1744.

ntre um grande numero de assumptos historicos, dá noticia de muitos Portuguezes insignes em Letras, bem como dos Poetas e Oradores mais singulares. Por este motivo mencionamos esta Obra, como fonte de alguns apontamentos para a Historia Litteraria.

Nota-se que não allega Escriptor, nem documento, d'onde tira as noticias que dá.

-CORPUS ILLUSTRIUM POETARUM LUSITANORUM, QUI LATIXE SCRIPSERUNT, etc.—dada á luz pelo Padre Antonio dos Reis, e augmentada com as vidas dos Poetas — pelo Padre Manoel Monteiro. Lisboa. 1745.

Riquissima Obra he esta, pela preciosa collecção de tantos escriptos de Varões doutos, que entre nós escreverão na lingua latina. Honra muito o reinado de D. João v, ehe um subsidio interessante para a nossa Historia Litteraria.

Vem primeiramente a biographia do Escriptor (Vila), contendo no fim a indicação dos Authores que d'elle fizerão menção; segue-se depois o Testimonia authorum, isto he, a transcripção dos elogios de que o Escriptor foi objecto da parte de diversos Authores; e a final encontrão-se as differentes producções em versos latinos --epistolæ, carmina, epigrammata, etc.

Julgo de grande interesse dar algumas noticias mais amplas sobre uma obra, hoje por ventura pouco lida, que faz grande honra ao reinado de Senhor D. João v.

No 1.° vol. são recolhidas as producções poeticas latinas de Pedro Sanches, Henrique Cayado, Manoel da Costa, Diogo Mendes de Vasconcellos, Miguel de Cabedo, Antonio de Cabedo.No 2." as de João de Mello e Sousa. -No 3.o as de Diogo de

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Paiva de Andrada. - No 4.0 as de Lopo Serram, e de Fr. Francisco de Barcellos.- No 5.o as de Fr. Thomé de Faria, Bispo de Targa, e as de Antonio Figueira Durão.—No 6.o as do famoso Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo. —No 7o as de Fr. Francisco de Macedo, Jorge Coelho, e Antonio de Gouréa.

Ainda hoje são lidas com prazer a maior parte das producções poeticas latinas do Corpus Ilustr. Poet. Lusit. Folheando ao acaso, no momento em que estava escrevendo estas linhas, dei com estes bellos versos de Manoel da Costa, a proposito da restauração dos estudos na Universidade de Coimbra, no reinado de D. João III:

Idem Lysiadum Mavortia corda suorum,
Quo paci propiora fôrent, mollire triumphis
Instituit sophiæ, et bellorum avertit amorem.
Nam qua se placido diffundit in æquora cursu
Munda inter virides campos, frondes que Minerva :
Qua volucres vario clementem gutture mulcent
Æthera, certatim replicat Philomela querelas,
Ingente veteres sumptu renovavit Athenas:
Eximios que viros, qui sacra arcana revelent,
Pontificum Decreta, et Legum ænigmata pandant:
Qui morbos abigant, qui Cælum, et sidera monstrent,
Imperat acciri: Merces proponitur illis
Magna; sed est major Regi placuisse benigno
Gloria etc.

A fóra, porém, o merecimento real das producções poeticas, ha circumstancias especiaes, que tornão muito recommendavel esta collecção. Permitta-se-nos que n'este ponto nos demoremos um pouco.

Dissémos acima que no 5.0 vol. vinhão as producções de Fr. Thomé de Faria, e são ellas nada menos do que a traducção latina dos Lusiadas de Camões.

Antonio Carvalho da Costa (Chorographia Portugueza), fallando de Fr. Thomé de Faria, diz:= E vendo o Illustrissimo

« Arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro, ser o dito P. M. Varão tão douto nas Divinas e Humanas Letras, e um dos mayores Latinos, que teve este Reyno, o nomeou Bispo de Targa e seu Coadjutor. Traduzio os Lusiadas de Camões a instancia e persuação dos PP. da Companhia de Jesus, ctc. »=

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Mais de um Escriptor caracterisa de elegante sua traducção dos Lusiadas; e para que os Leitores, a quem ella não fôr conhecida, possão, desde já, apreciá-la, aqui transcreveremos alguns versos:

(Epis. de D. Ignez de Castro.—Estavas linda Ignez, etc.)

«Ecce quiescebas Mondæ pulcherrima ripis
Ætatisque tuæ captabas dulcia fructûs
Præmia, (sed multum requiescere gaudia vitæ
Non patitur fortuna ferox) tua lumina Mondæ
Stellati ripas lacrymis et fletibus augent,
Principis et Petri gratum tibi nomen, et alta
Fixum mente manens manifestas montibus, herbis,
Floribus, atque rosis, hyacinto, albisque ligustris.
His animum incensum curis inflammat amore
Fæmina, et illustrat noctis cùm Luna tenebras
Sola domo mæret vacua, strato que relicto
Incubat illum absens absentem, auditque, videtque
Nobilium Princeps thalamos jam despicit, Agnes
Pectore sola manet, solam sociare sodalem
Constituit Petrus, sibi stat sententia menti,
Conjugio Agneti tandem se tradidit illi.
Improbe amor, sic tu mortalia pectora cogis!

Etc.
(Canto 4.°--Depois de procellosa tempestade, etc)
Post pluvias, imbres, nimbos, sævam que procellam,
Nocturnam que umbram, furiosi et flamina venti,
Sol oriens radiis tranquillat nubila claris,
Imbelli gelidum removet que à mente timorem,
Dat quoque spem portûs, statio tutissima nautis
Apparet, nigras pellit sol lumine nubes
Resplendens. Lusis sic fortibus accidit, atra
Postquam Fernando fatalia filia recidit
Atropos, et populos, et regna cadentia liquit.

Etc. (Epis. do Adamastor.—Porém cinco sóes erão passados, etc.)

Sed jam quinque rates sulcabant salsa diebus
Æquora, tranquillos nigro mittebat ab antro
Æolus ad classem ventos, auram que quietam,

Cum nocte excubias agerent de more sodales,
Apparet nitidum conturbans aëra nubes,
Ilorrida, dira, ferox, capite supereminet alto.
Sic graves, et magno sic formidanda furore
Apparet: nimio torpent stupefacta timore
Membra, coit gelidus dirà formidine sanguis,
Fervet arena freti, gemitus que ad sydera pontus
Tollit, et ingenti fremitu quatit unda recurrens
Insanas rupes; imo suspiria corde
Educens, lacrymans que preces ad sydera fundo.

Etc.

Muito mais quizéramos transcrever; mas o que deixamos copiado he bastante para despertar a curiosidade do Leitor a julgar por si proprio a traducção de que se trata.

Não se pense, porém, que damos á traducção latina uina importancia desmedida. Os Lusiadas são intraduziveis, e só no original podem ser avaliadas as suas admiraveis bellezas, as quaes se perdem na versão. Mas nem por isso deixamos de achar mimiamente severo a D. Francisco Manoel de Mello, quando no Hospital de Letras diz:

Bocalino. — Cuydey que se queixava (Camões) de quatro

traducçoens, e dous commentadores, que o tem posto na

espinha. Lypsio.-- Quaes são? Author.–O primeyro he o Bispo Frey Thomé de Faria, que

o traduzio em latim, vindo de Targa, seu Bispado; porque pela fórma da tradução mais parece romance punico, que Romano.

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No tomo 6.', como já dissemos, vem as poesias latinas do famoso Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo, a quem Diogo Barbosa Machado chama «Varão verdadeiramente Encyclopedico, insigne Ornato da republica litteraria, e immortal credito de tres Familias Religiosas, que illustrou com seu talento; » e D. Francisco Manoel de Mello o appelida o memorioso e memoravel Macedo.

São muito dignas de serem mencionadas as Theses que defendeu em Veneza no anno de 1657, e tinhão por titulo=Leonis Sancti Marci rugitus litterarii.=Aqui as transcrevemos, para

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