Page images
PDF
EPUB

com que

FR. BERNARDO DE BRITO.—Monarchia Lusitana.)

O prologo da primeira parte d'esta obra he digno de ser lido, porque o elegante chronista narra com ingenuidade as incertezas

luctou a respeito da lingua em que havia de escrever. Quasi o tiverão abalado os amigos que lhe aconselhárão, que escrevesse na lingua latina, não só para bem de sua reputação, mas principalmente para se divulgarem por mais partes os seus escriptos. Outros lhe dizião que compozesse a obra em lingua castelhana; a estes nunca o chronista fez rosto, attendendo a que seria arguido de indigno do nome portuguez, em ter tão pouco conhecimento da lingua propria, que a julgasse por inferior á castelhan 1.

Brito preferiu a lingua portugueza, querendo extremar-se d'esses filhos tão ingratos, que a modo de venenosas viboras lhe rasgão a reputação e o credito devido.

Nobre e muito nobre indignação! Ainda hoje a comprehendemos, ainda hoje nos inflamma, do mesmo modo que nos impressiona vivamente o desafogo de um grande talento contemporaneo (o sr. Garrett) ácerca de Sá de Miranda: «Não posso « deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que « escreveu n'essa lingua estranha (castelhana); com que não só « privou a natural do fructo de suas tarefas, mas fez maior damno « ainda com o exemplo que abriu; exemplo funesto que nos cer« ceou a litteratura, que nos defraudou de uma Diana de Monte« maior, de tantas boas cousas mais, e ao cabo ia perdendo a lin«goa. »

Cousa notavel! Brito lastimava-se de ter pouca noticia da lingua, e declarou no prologo que teria mais os olhos em apurar a verdade, que em buscar invenções exquisitas, com que pintar a Historia; e comtudo, as suas producções são primorosas em pontos de linguagem e estylo, sem que outro tanto se possa dizer no que toca ao merecimento historico.

-VASCO MOUSINHO DE QUEVEDO.— Affonso Africano.»

Tambem quiz, diz elle, mostrar (aos metrificadores d'esta idade) a copia da nossa lingoa, não me sendo necessario ajudar-me em todo este livro de verso que seja agudo.

MANOEL Severim de Faria. — « Discursos varios politi

COS. »

No artigo anterior apontámos o que mais de substancial se encontra nos escriptos deste erudito portuguež.

Cumpre porém observar que o Discurso 2.° de Faria he digno de ser lido com toda a attenção na sua integra, porque ali he tratado o argumento da excellencia da nossa lingua com todo o desenvolvimento, critica e erudição.

MANOEL DE FARIA E Sousa. —«Advertencia ao principio do Commento aos Lusiadas de Camões. »

=I...... El Maestro Vicente Espinel me dixo algunas veces, que era un encanto la lengua Portuguesa en la suavidad del sonido. Lope de Vega en la descripcion de la Tapada, despues de aver hecho cantar dos Ninfas, una Italiana, otra Latina, dize de la Portuguesa que les sucedió deste modo:

Assi cantando fué la Portuguesa
Con celebrado aplauso larga historia,
A quien por la dulcura que professa,
Entrambas concedieron la victoria.

«I essa dulçura confessada a boca llena, no procede si no de lograr las cinco partes de perfecion qui ai diximos.» (Estas cinco partes são as que Severim de Faria assevera darem-se na lingua portugueza.)

«Nuestro sentimiento acerca desto (diz a final Faria e Sousa) es creer que la lengua portuguesa sin ser inferior a ninguna, excede a muchas, en lo dulce, i en lo grave; i en la singular propriedad de muchas palabras, que no se roçan con otra ninguna lengua, para exprimir lo que significan: ni aun con variedad, i elegancia de circumloquios. »

[ocr errors]

-ALVARO FERREIRA DA VERA.—« Breves louvores da Ling. Port. »

Reproduz o que disserão Brito e Faria, e pouco mais acrescenta, a não serem algumas ponderações historicas acerca das linguas em geral, e da nossa em particular.

-DCARTE RIBEIRO DE MACEDO. — «Advertencia á vida da Emperatriz Theodora.»

Lastima-se de que sendo a lingua portugueza elegante, copiosa, e clara, a escurēção com termos peregrinos.

ANTONIO DE Socsa De MACEDO.—« Flores de Espala, Excellencias de Portugal. »

Reproduz e desenvolve o que disserão Brito, Barros, Duarte Nunes de Leão, e Manoel Severim de Faria.

Convém ponderar que este e outros authores nossos devem ser lidos, nesta parte, com alguma prevenção, porque nem sempre os guiou a mais apurada critica.—Macedo, por exemplo, no cap. 22 das Flores d'España, diz o seguinte: «Finalmente Ma« nuel Severim de Faria en un discurso, que excelentemente es« crivió desta materia, prueba bien, que la lengua portuguesa a tiene todas las qualidades, que se requeren, de modo, que haze «« vantaja a muchas, y a todas iguala. Y basta en lugar de lo mu« cho que pudiera decir-se lo que succedió a S. Antonio de Lis« boa, que predicando una vez salieron los pexes con las cabe« ças fuera del agua a oirle: otra vez predicando en Roma a un « auditorio de muchos cardinales, prelados, y personas de dife« rentes estados, y naciones, le entendieron todos tan perfetaa mente, como si a cada uno hablara en su misma lengua, comamunicandole Dios a este gran Santo la gracia, que avia dado a «sus Apostoles, que lo proprio hazian. Y aunque el entonces no « predicó en portugues, con todo, es gran honra nuestra aver «dado Dios tan soberano don a una lengua portuguesa, y oy se « conserva incorrupta: que maior excelencia!»

Jacinto FREYRE DE ANDRADE. «Vida de D. J. de Castro. >>

«Se me notarem o livro de ruim, não negarão que he breve e escripto em lingua portugueza, que tantos engenhos modernos ou temem, ou desprezão, como filhos ingratos ao primeiro leite, servindo-se de vozes estrangeiras, por onde passarão como hospedes, sem respeito a aquellas veneraveis cãs e ancianidade madura de nossa linguagem antiga.»

-FR. ANTONIO DA PURIFICAÇÃO.--«Chron. da antiq. Prov. de Port. da Ord. dos Eremitas de Santo Agostinho.»

Cita em tudo quanto diz de louvor da nossa lingua o Disc. 2.° de Sev. de Faria, por occasião de expôr os motivos por que compozéra a sua Chronica na lingua materna.

D. RAPHAEL BLUTEAU.—-«Catalogo Alphabetico, topographico, e Chronologico.... »

=«Pello contrario a Lingoa Portugueza, como lingoa viva, sempre se vai enriquecendo, e já he tão abundante. e opulenta, que em todas as materias tem ricos termos. Era antigamente a lingoa portugueza tam pobre, como o foram todas as mais lingoas nos seus principios; só nas folhas de alguns livros Historicos, ou Predicativos, sahia singelamente á luz; mas com as obras de muitos Autores teve successivamente tão preciosos ornatos, que não tem que envejar ás mais elegantes Lingoas da Europa o seu luzimento.»=

-O PADRE ANTONIO VIEIRA.—«Approvação da 3.o parte da Hist. de S. Dom.»

« A linguagem, tanto nas palavras como na phrase, he pura« mente da lingua em que o author) professou escrever, sem « mistura ou corrupção de vocabulos estrangeiros: os quaes só « mendigão de outras linguas os que são pobres de cabedaes da a nossa, tão rica e bem dotada, como filha primogenita da La« tina.»

O Padre Antonio Vieira a approvar as obras de Fr. Luiz de Sousa! que feliz combinação! que apropriado lance! Com rasão rompem os authores illustres do Diccionario da Academia nestas enthusiasticas palavras:=Que homem tão proprio para avaliar o preço de outro assim como elle illustre, e tanto seu simiIhante!=

FRANCISCO DIAS GOMES.--«Obras poeticas.

« As composições poeticas de Francisco Dias Gomes, diz o a sabio Stockler, é as annotações que elle mesmo fez são, quanto « a mim, o mais perfeito, ou talvez o unico modelo, que nestes a ultimos tempos se tem entre nós publicado, digno de apresen« tar-se aos olhos de quem pretende escrever com elegancia e a pureza no idioma portuguez. Pelo menos são certamente bem « poucos os escriptos do nosso tempo, que n’este artigo se pos«sam mostrar isemptos de nodua: e não sei que haja um só, o « qual seu auctor tomasse o trabalho de annotar, como Fran« cisco Dias, com tantas e tão bem escolhidas observações cri«ticas sobre a indole particular da nossa lingua, e sobre as di« versas elegancias e maneiras, que determinão, por assim diazer, o seu caracter. »

São na verdade um primor de philologia as annotações de Francisco Dias Gomes, e por isso muito recommendaveis aos que pretendem obter cabal conhecimento da Lingua e Littera

tura Portuguezas. Na parte que especialmente nos occupa, devemos indicar como um excellente subsidio as annotações a ode 2. (pag. 277 a 318) dedicada á Lingua Portugueza, a qual começa assim:

« Lingua, cuja suave melodia,
« Cuja enchente fecunda de expressões
« Clara te faz entre as viventes linguas

« Mais que todas illustre. »

Se Virgilio e Cicero, diz depois o poeta :

«Quvissem como sốas doce e branda;
«Tua indole grave e magestosa,
« Flexivel para todos os assumptos,

« Attentos contemplassem:

«Do mais polido seio da Latina
« Dirião ser nascida a Lusa Lingua,
«A mais propria de assumptos magestosos,

« De engenhos levantados.»

Nas Notas a esta Ode espraia-se o author em louvores á nossa lingua, descrevendo com summa erudição, apurada critica, e finissimo gosto, a doçura e harmonia da lingua portugueza, a sua copiosidade e abundancia de palavras-a sua magestade, pureza e elegancia --a sua flexibilidade para todos os assumptos.

Teremos occasião, quando tratarmos dos Escriptos Philologicos e da Critica Litteraria, de citar novamente, e com maior amplitude, as «Obras poeticas » de Francisco Dias Gomes, e então observaremos o quanto he rica a preciosa mina de doutrina litteraria, que este grande humanista nos offerece nas suas «Notas. »

-A. M. SANÉ.-«Introduction sur la Littérature portugaise.»

«Qu'on ne croie pas que la langue portugaise soit proprea ment restreinte au peuple qui la parle; elle est encore la lan«gue du commerce asiatique; elle est répandue depuis le Cap a de Non jusqu'aux îles du Japon, et depuis l'île de Madère a jusqu'au Brésil: d'ailleurs, cette langue est belle, sonore, nom«breuse; affranchie de cette aspiration gutturale que l'on re

« PreviousContinue »