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toria especial da litteratura portugueza, contém tambem curiosas noticias acerca da nossa Universidade, derivadas das Not. Chron. da Univ. de Coimbra, por Francisco Leitão Ferreira-das Mem. mss. de Figueirða —do Comp. Hist. da Univ. de Coimbra, etc. No terreno em que se collocou o Sr. Freire de Carvalho, podemos affoutamente dizer que tratou muito bem os differentes periodos da nossa Historia Litteraria, e com especialidade o que diz respeito ao seculo xvIII.— estimavel Author do Ensaio começou a escrever a sua obra nos principios do anno de 1814, como para encher de algum modo a lacuna que existia n'esta importante e rica parte da nossa historia, e que aliàs já tinha sido lamentada pelo insigne Paschoal José de Mello, quando disse: Jure tamen iidem (Lusitani) reprehendendi, quod litterariam gentis suæ historiam, eam que tam egregiam, ac præclaram tam diu in situ, et oblivione jacere patiantur. ' -Todavia o Ensaio só sahio a lume no anno de 1845.-0 douto Author deu a sua Obra o modesto titulo de Ensaio; é com effeito fóra impossivel a um só homem, e por em quanto, fazer um trabalho completo sobre a Historia Litteraria. Cabe-lhe, porém, a gloria de ser o primeiro que encetou a ardua tarefa, e tem direito á gratidão nacional por haver proporcionado alguns subsidios a futuros escriptores. (Vej. o excellente juizo critico inserto na Rev. Univ. Lisb. n.° 32 de 29 de Janeiro de 1846).

Ao Primeiro Ensaio uniu o Sr. Francisco Freire de Carvalho, por appendice, uma Memoria, que o Abbade Corrêa da Serra publicou em París no anno de 1804, escripta em francez, e agora vertida em portuguez pelo Sr. Freire de Carvalho, na qual o sabio Abbade da conta dos progressos das Sciencias e das Bellas Letras em Portugal na metade do seculo XVIII.

Nos dez annos que decorrem de 1760 a 1770 melhorou ElRei D. José a Instrucção Primaria e Secundaria; fundou o Collegio dos Nobres; mandou plantar o magnifico Jardim Botanico de Ajuda, e deu principio a um Gabinete de Historia Natural; estabeleceu a Impressão Regia, com uma fundição de caracteres, que nos libertou em grande parte de comprarmos typos a estrangeiros; creou o Imposto do Subsidio Litterario para sustentação das Escholas.

Seguem-se a estes melhoramentos a reforma da Universidade, e a creação de Estabelecimentos Scientificos na Cidade de Coimbra.

1 Hist. Jur. Civ. Lusit. Cap. 12.° $ 113?no fim das notas. Esta citação não vem cumplela no Ensaio.

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ElRei D. José desceu á sepultura em 1777; Sua Augusta Filha, a Senhora D. Maria I, respeitou os grandes Estabelecimentos de Seu Pai, e Ella propria fundou outros de novo, e entre esses (por influencia do esclarecido Duque de Lafões, D. João de Bragança) a Academia Real das Sciencias de Lisboa, cuja historia e serviços o Abbade Corrêa da Serra expõe e desenvolve longamente.

Esta Memoria, que necessariamente havia de produzir grande effeito entre os Francezes, rehabilitando o conceito que os Portuguezes havião perdido nos paizes estrangeiros, onde erão considerados como um povo semibarbaro e ignorante; esta Memoria, dizemos, he interessante para a Historia Litteraria do nosso paiz na ultima metade do seculo xviII, e maiormente annotada como está pelo Sr. Freire de Carvalho, e uma vez que se dê o desconto de ser escripta por um Portuguez, que havia tantos annos estava longe da patria.

José Corrêa da Serra foi um dos Portuguezes, que maior honra dérão a Portugal nos tempos modernos, tornando celebre e respeitado o seu nome na Europa e na America, pelo seu variado e profundo saber, por seus serviços á Sciencia, ás Letras, e á Patria.

=«O Sr. José Corrêa da Serra, fallando e escrevendo diversas «linguas da Europa, levava estes conhecimentos ao Grego mo«derno: sabia o Hebraico, o Grego e o Latim com a maior per«feição. A sua grande erudição unia juizo discreto de a saber «applicar na devida conta; dotado de uma memoria prodigiosa, ae de não menos sagacidade, tinha o singular talento de saber wextrahir da combinação dos factos conclusões eminentemente «interessantes, assim da ordem physica, como da moral; escre«vendo com grande acerto e pureza, guardava estylo claro e «desempeçado.)=Tal he o modo por que termina o elogio d'este sabio o Academico Manoel José Maria da Costa e Sá.

Abstrahindo dos serviços que José Corrêa da Serra prestou ás Sciencias Naturaes, que não são da nossa competencia, faremos menção do grande impulso que elle deu aos estudos economicos em Portugal, como se ve do Discurso Preliminar que pôz á frente das Memorias Economic's da Academia Real das Sciencias de Lisboa; faremos menção das diligencias e zelosos cuidados com que suggerio e promoveu os trabalhos statisticos e os geodesicos do Reino,-o exame dos Cartorios de Portugal e de Hespanha por Socios da Academia, --os programmas para illucidação do

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direito, historia e costumes nacionaes; faremos menção do particular cuidado que lhe mereceu a historia patria, recordando a interessante Collecção de Livros ineditos de Historia Portugueza, á frente das quaes escreveu um Discurso Preliminar, e a cada uma das peças, de que a Collecção consta, uma erudita Introducção. Até a Legislação patria lhe attrahiu a attenção, emprehendendo um Catalogo Chronologico, que depois foi ampliado por João Pedro Ribeiro.

Como subsidios para o conhecimento dos escriptos de José Corrêa da Serra, bem como dos serviços por elle prestados ás Letras, ás Sciencias, e aos interesses do nosso paiz, vejão-se os seguintes documentos:

- Elogio Historico de José Corrêa da Serra, recitado na Sessão pública da Acad. R. das Scienc. de Lisboa do 1.o de Dezembro de 1829, por Manoel José Maria da Costa e Sá.

- Memorias da Acad. das Scienc. passim.
-Memorias Economicas da mesma Acad.

-Collecção de Livros ineditos de Hist. Port. (Disc. Prel. e
Intruducções).

Balbi, que tambem traz por appendice, em francez, o trabalho litterario de Corrêa da Serra, de que acima damos conta, vertido em portuguez pelo Sr. Freire de Carvalho, diz no tomo 2.o do seu Essai Statistique o seguinte a respeito de José Corrêa da Serra:

«C'est un des botanistes les plus distingués de l'Europe, connu surtout par ses savants mémoires sur la botanique physiologique, qui sont insérés dans les Transactions philosophiques de la société royale de Londres et dans les Annales du Museum de París. C'est avec le secours de l'abbé Corrêa que le duc de Lafões fonda l'Académie des Sciences de Lisbonne, dont il fut élu Secrétaire perpétuel. C'est un des portugais modernes qui ont le plus voyagé, etc.»

Antes da publicação do Ensaio de que acabamos de fallar, sahio á luz em França um livro de grande merecimento, que muito faz ao nosso proposito, e vem a ser: RÉSUMÉ DE L'HISTOIRE LITTÉRAIRE DU PORTUGAL-par Ferdinand Denis. 1826.

O nome do Sr. Ferdinand Denis deve ser-nos tão caro, como se fosse o de um compatriota nosso, pelo serio estudo que tem consagrado ás nossas Letras, pelo enthusiasmo e quasi paixão com que ha pretendido rehabilitar a nossa fama do mundo civilisado, pelos relevantes serviços que em similhante carreira tem prestado a

Portugal. --Vendo elle que em França não era bem conhecida a Litteratura portugueza, e por outro lado, que não existe ainda a Historia Litteraria d'esse povo extraordinario, que brilhou apenas por um instante, mas assim mesmo encheu o mundo com a sua gloria, deliberou-se a apresentar um bosquejo d'essa Litteratura, tão ignorada, talvez tão despresada! - illustre Litterato quiz ser apreciador justo, imparcial, verdadeiro, exacto... e para conseguir este grande desideratum, ei-lo que se entrega ao exame profundo de tudo quanto n’este particular póde fornecer-lhe luz, e encaminha-lo' nas suas indagações. Folheia e estuda as Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa-as de Litteratura Portugueza, publicadas pela mesma --a Bibliotheca Lusitana de Diogo Barbosa Machado-o Theatrum Lusitaniæ Literariuin (Ms.) de João Soares de Brito—o Diccionario da Lingua Portugueza, publicado pela Academia Real das Sciencias de Lisboa -as Obras Poeticas de Francisco Dias Gomes -os Annaes da Sciencias e das Artes. Não contente com estes subsidios, consulta os Authores estrangeiros que tratárão das nossas Letras, taes como: Sismondi, Bouterweck, o Mercurio Estrangeiro, linck, Duchâtelet, e Dumourier (viagens), Andrés e Balbi; e a final lê os nossos Escriptores de diversos generos e seculos, para adquirir um cabal conhecimento do assumpto. Possuidor de taes conhecimentos, e enriquecido com esses cabedaes, passa a apreciar o merecimento litterario dos portuguezes nos differentes periodos da sua vida nacional, e é então que muito sobresahem o vivo interesse, o sentido enthusiasmo que as nossas cousas lhe inspirão, a par de todos os requisitos de excellente critico.- E comtudo o maior merecimento do Résumé (aliàs tão recommendavel pelo methodo, doutrina, gosto e criterio) he o de demonstrar a indispensabilidade de um trabalho infinitamente mais extenso, desenvolvido e largo, talvez segundo o modelo da inapreciavel obra de Ginguené.

-BIBLIOTHECA LUSITANA HISTORICA, CRITICA E CARONOLOGICA - por Diogo Barbosa Machado. Lisboa 1741 - 1759.

A Bibliotheca Lusitana he a obra mais rica que possuimos em noticias biographicas e bibliographicas dos nossos Escriptores, e por esta razão ha de ser sempre consultada, com muito proveito das Letras.-- douto e incansavel Author aproveitou o Thesaurum Lusitaniæ, sive Bibliotheca Scriptorum omnium Lusitanorum, do doutor João Soares de Brito; recorreu, com admiravel paciencia, a todas as fontes de erudição que encontrou em varios manuscriptos, e a informações de pessoas competentes, e fez á Litteratura portugueza um relevante serviço, colligindo um vasto catalogo chronologico, historico, e critico dos Authores portuguezes, e das obras que compuzerão.—Um tal trabalho, porém, requeria essencialınente a mais apurada critica, e não parece ser esta a qualidade que mais sobresahe na obra de Barbosa, com quanto digna do mais subido apreço a muitos respeitos.

O Sr. Ferdinand Denis, fallando d'esta obra, diz: «Não esperemos de Barbosa uma critica interessante; conta a vida dos authores, apresenta a lista das suas obras, e transcreve o juizo critico que outros têem feito, e n'esta parte deve ser lido com toda a reserva, por isso que, de envolta com louvores imparciaes e illustrados, resere outros, que ou são devidos a mera contemplação, ou peccão por exagerados.» »- He necessario, diz um phiJologo nosso, desconfiar muito dos elogios em que costuma ser prodigo o author da Bibliotheca. Veja-se o nosso José de Sousa, que era um cego dado á poesia, e ahi se encontrará uma hyperbole a mais injuriosa á memoria do cantor da Illiada. O mesmo philologo diz n'outra parte: Não he seguro o author em as noticias da Litteratura grega, nas quaes, ainda ignorando a lingua, podia ser mais exacto. — Na Bibliotheca notão-se muitos erros de datas, deseuido alias que não deve ser estranhado severamente em obra de tal natureza e tão vasta. -No Diccionario da Academia e elogiada esta obra, como: ntre nós primeira, e até agora unica no seu genero, digna da publica estimação, e sempre

benemerila da Litteratura portugueza, por seu grande trabalho, indispensavel utilidade, copiosa lição, e experimentado prestimo. Mais abaixo, porém, lê-se: Se d'ella... algumas vezes nos apartámos, ou lhe advertimos alguns descuidos, he, ou por motivos que a isso nos obrigaram poderosos, ... ou para que os taes descuidos, inevitaveis em uma tão longa obra, se emendem para o futuro em beneficio commum.- Da Bibliotheca fez um Summario ou Resumo o professor Bento José de Sousa Farinha, que muito util se torna aos que não possuem a obra completa.

No erudito Prologo diz Machado, depois de mencionar todos os trabalhos da historia Litteraria de differentes nações: «Sendo a Nação Portugueza tão respeitada em todo o orbe Litterario pela profundidade com que he instruida em todas as sciencias, somente lhe faltava para ultimo complemento da sua gloria pu

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