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Incitado por esta ultima consideração, e attendendo a que o primeiro Litterato portuguez de nossos dias composéra somente um Ensaio, deliberou-se a tentar um segundo, o qual, em verdade. muito abona a sua grande lição, e perspicaz juizo.

Na Introducção enuméra o Sr. Roquette as causas principaes da origem dos sinonimos, e são, no seu entender, as seguintes: 1.o a diversidade dos dialectos; 2.o a variedade das origens etymologicas; 3.° a facilidade que tinhão os sabios no principio para formar novas palavras por allianças etymologicas, muitas vezes obscuras e arbitrarias; 4.° a translação das palavras do seu sentido proprio e figurado; 5.o a liberdade com que os poetas da idade aurea da nossa Litteratura formárão palavras novas, ou aportuguezarão grandissimo numero das latinas; 6.° o neologismo.

Expoem depois a theoria dos sinonimos, e dá conta do methodo que seguio no seu trabalho. Regulando-se pela doutrina do Padre Roubaud, assentou assim a theoria: definão-se os termos, tirem-se das definições suas differenças, e confirmem-se com o uso. No que toca ao methodo, regulou-se pelos conselhos de M. Guisot, examinando a etymologia das palavras, apreciando o valor das terminações, recorrendo por vezes ás linguas analogas, authorisando-se com os authores de boa nota, sem todavia renunciar, em quanto a esta ultima parte, ao seu modo de vêr as cousas, sempre que vio desacordo entre a authoridade classica e a sinonimia de termos modernos.

Uma circumstancia ha, que muito recommenda o trabalho do Sr. Roquette, qual he a de ter diligenciado, e effectivamente conseguido, encontrar nos nossos classicos um grande numero de subsidios para compor o Diccionario. Ouçamos a sua propria declaração 'a tal respeito:=«Dom F. Francisco de S. Luiz «diz ter achado mui poucos subsidios em nossos Classicos para acompor seus synonimos, e que rarissimas vezes tivera o satis«fação de encontrar tão boa e segura guia; outro tanto não diaremos nós, pois só Vieira nos deo grande numero de artigos, «e ministrou definições seguras para bem fixar a synonymia de «muitas palavras, como se pode ver do contexto de nosso dicacionario. Era Vieira tão propenso a examinar a synonymia das «palavras portuguezas, que d’um só synonymo fez um sermão: «Crer em Christo, crer a Christo.»=

E com effeito, o author do Diccionario tirou grande partido da leitura dos nossos Classicos, e de tão rica mina desenterrou

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cabedaes, que mui proveitosamente empregou no seu trabalho sobre os Synonimos. E ainda não está de todo explorada essa minal Na occasião em que eu lia, ha pouco, a famosa carta de D. Francisco Manoel de Mello a Themudo, encontrei nella um bello exemplo de synonimia, que aos dous philologos escapára, e he o seguinte:

=« Decisão, supposto que em commum sentido pareça o mes«mo que Sentença, sốa, a meu juizo, cousa de muito maior diganidade. E a razão he, que a sentença parece, que não olha tanto «á qualidade da duvida, quanto ao conceito, que della fez o Juiz, aque sentenceia; e a decisão não olha tanto ao animo do Juiz, «quanto a qualidade da duvida. Donde se segue, que toda a de«cisão he sentença, mas nem toda a sentença he decisão. E ainada no rigor dos verbos, em sua raiz Latina e Grega, o senten«ciar he huma manifestação do sentido de cada hum, e o deci«dir he desfazer, e cortar a duvida de dous. — Poder-se-hia «assim dizer: Que o sentenciar cabe somente nas causas duvi«dosas, e o decidir naquellas, que duramente estão cegas, e obsatinadas. E como todos os negocios dos homens, não só os ema barace a duvida, que procede da ignorancia da verdade; mas aos áte, e difficulte o vinculo, que se produzio da malicia: claro afica, quanto mais faz, e fará o que decidir, julgandu para si e «para os outros, que o que sentenciar, apenas julgando para «aquelles que julga.»=

Seria curioso apresentar aqui aos Leitores um exemplo do modo porque os dous philologos, de que nos occupamos, tratão um determinado assumpto, quando succede que ambos explicão os mesmos vocabulos; mas levar-me-hia isso muito longe, e este capitulo já vai estirado.

Terminarei, expondo com franqueza o meu humilde parecer acerca do diverso merecimento dos dous escriptos sobre synonimos.

Se a elegancia da linguagem, o castigado da dicção, e a precisão philosophica me encantão no Ensaio,-encontro no Diccionario artigos de vasta erudição, authorisados com exemplos seguros, e tratados de mão de mestre, taes são, por exemplo, os artigos: Genio, talento, engenho;Estrangeiro, estranho, peregrino, forasteiro; etc. O author do Ensaio tem a indisputavel gloria de ser o primeiro que abrio o caminho; o do Diccionario tem a gloria de haver alargado a esphera dos conhecimentos neste ramo de litteratura, hindo muito adiante do ponto em que parára o primeiro.

Confessarei finalmente que ambos os escriptos são excellentes subsidios para o ramo de Litteratura de que se trata; e que, nesta parte, estamos em bom caminho de progresso.

CAPITULO VIII.

DE DIVERSOS TRABALHOS PRILOLOGICOS SOBRE A LINGUA PORTUGUEZA,

«La philologie est l'anatomie des langues..... elle scrute les idiomes humains, elle en démontre les ressorts, en décrit les procédés.

«L'homme parle, parce qu'il pense; il pense, parce qu'il est homme; la parole est la condition terrestre de la pensée, et il est puéril de les séparer.—La philologie a donc une mission sociale et n'est inférieure à aucune des sciences humaines.»

Assim se exprime M. Lerminier no seu curioso Livro-Aude du Rhin, definindo perfeitamente a philologia, explicando a sua missão, e fazendo sentir o alcance e a elevação desta sciencia.

Reuniremos neste Capitulo os diversos escriptos sobre a Lingua Portugueza, que reputamos puramente philologicos.

ADAGIOS PORTUGUEZES, REDUZIDOS A LUGARES COMMUNS pelo Licenciado Antonio Delicado. 1651.

«Os adagios, diz Delicado, são as mais approvadas sentencas, que a experiencia achou nas acções humanas, ditas em breves, e elegantes palavras. Comprehende esta doutrina nam só as cousas moraes, mas todas as artes, e sciencias, e por isso em as mais das nacoens procuraram authores graves pôlas em memoria, e escrever dellas..... Pello que vendo eu, que sendo a lingua Portugueza não menos abundante destas sentenças, que todas as outras da Europa, me dispuz a colligir de varios exemplos esta pequena obra. Bem sei que pudéra ser o numero muito mayor, mas eu escolhi somente aquelles, que pera a decencia, e utilidade publica me parecerão mais approvados.»

He claro que citamos esta obra debaixo do ponto de vista philologico, e como elemento de estudo da lingua.

-METÁPHORAS, ou FEIRA DOS ANEXINS — seu Author Dom Francisco Manoel de Mello. (Obra inedita).

=«Livro curioso, diz o Sr. Alexandre Herculano, em que estão lançadas methodicamente as metaphoras, e locuções populares da lingua portugueza, e que seria quasi um manual para os escriptores dramaticos, principalmente do genero comico, que quizessem fazer fallar as suas personagens com fraze conveniente e com as graças e toque proprio da nossa lingua portugueza, e do verdadeiro estilo dramatico.»=

Para que os Leitores, que não tiverem conhecimento da Feira dos Anexins, possão fazer idéa aproximada desta curiosa producção de D. Francisco Manoel, lançarei aqui alguns trechos dessa curiosa obra:

=«Homem, o entendimento nam he fazenda, que ande em «cabeça de morgado; quem não tem cabeça sempre hé mais caabeçudo.

«Nam repara em cabeçadas.

«Dizem despropositos, e quebram-nos as cabeças com se me«terem na cabeceira do rol dos discretos.»

=«Eu aqui estou com os braços crusados, pois tenho bra«cejado bastantemente; por nam dar o meu braço a torcer, e «vocês me atam os braços com o empenho: venham quantas me«táphoras vierem, todas aceito com os braços abertos.

«O que se pode receаr sam abraços de frade.

«Temos pulha me fecit: elle nam poderia valerse do braço «secular.»=

(vras

=«Vá de metaphora de maons, que lhe heide agora por as maons, e a boa vontade.

«O senhor, se lhe dam o , toma a mam.
«Muitas vezes deve huma pessoa dar de mam a certas pala-

«Agora metidas as maons na maça, não tem remedio: ham «de se encher maons de papel, mas que seja o que fôr.

«Olhe o manáças botando as maons de fora na valentia: «meta a mam no ceyo, que nem tudo o que diz são discrições; «tambem manqueja muy bem.

«Senhores, com as maons erguidas lhes peço, não brinque

amos de maons, que ás vezes das maons escapa huma, que he «bofetada sem mam, e a pedra tanto que vay fora da mam, nam atem remedio.»=

=

=«Em metaphora de Estomago. Confesso-lhes que já estou «bem estomagado.

«Pois a mim com pouco se me embrulha o estomago, e si«milhantes chascos, nam me fazem bom cozimento a elle.»=

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E«Eu cá estou com hum no ar, como grou,

ouvindo-os «a vocês gabar-se, porem não quero dizer nada, que ainda não apondo o faço pegada.

«Nam digo eu! Debaixo dos pés se levantam os callos; heide «arrimar os pés á parede a nam dizer nada.

aOra diga, meu S.", se o offendi, aqui me tem a seus pés.»=

=«Que he isso lá com a Noz? falláram a esta palavra as «Nozes. Nós he cousa atada, disseram as Bolotas. Pois nam, «tornáram as Nozes, nada de atadas temos; antes por muy de«senvoltas a todos nos mostramos. Isso he por serem quentes, «replicáram as Bolotas: nam somos nós assim, quem quizer bo«lota, que trépe: nam somos tão faceis, quer hùas, quer outras. «Valha-as hùa figa, disseram nesta occassiam os Figos, tem tanto ajuizo ambas como huma avelâa. Quem os mette cá com as fru«ctas seccąs? perguntáram as Tamaras. Porque, responderam «elles, vossês nunca viram presentes de figos passados, que vem «do Algarve? Alguns de vossés levam-nos as lampas em tempo «de figos? Nem ainda as fructas verdes pola vindima, pois cheagou o texto das velhas, que quando ha figos, nam ha ami(gos.»

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Folgaria muito de proseguir nas interessantes citações; mas o meu intento foi unicamente dar uma amostra da natureza da Obra-ás pessoas que ainda a não poderão haver á mão.

1 Panor. 1840. pag. 296.

2 Os Leitores que não podérem haver á mão a Feira dos Anecins, devem recorrer a uma obra de João Baptista de Castro, que tem por titulo: Hora de Recreyo nas ferias de mayores estudos, e oppressão de mayores cuidados. Lisboa 1750. Ahi encontrarão alguns extractos, se bem que em limitado número.

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