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«O estudo dos sinonimos exerce a sagacidade do entendimento, acostumando-o a distinguir o que seria facil confundir; determinando o sentido proprio dos termos, previne as disputas de palavras, de que são quasi sempre causa os equivocos e amphibologias; fixa o uso, do qual vem a ser a testemunha e o interprete; collige, por assim dizer, as folhas dispersas em que se contém os oraculos desta imperiosa Sibylla; póde até suppri-las ajudando-se dos recursos que a analyse logica e grammatical The ministrão, faz adquirir ao estilo aquella propriedade de expressão, aquella precisão, que he a pedra de toque dos grandes escriptores; em fim, enriquece a lingua de todos os termos, os quaes distingue d'um modo positivo, porque não he a repetição dos mesmos sons, senão a das mesmas id que

enfastia e cança o leitor. »=

Não menos fazem ao nosso proposito as opiniões de dous philólogos portuguezes, que a nosso vêr puzerão fóra de toda a duvida a utilidade de um bom tratado de Sinonimos.

D. Francisco de S. Luiz diz assim:= a.... sendo incontestavel, que os progressos da razão humana em qualquer ramo das sciencias, depende essencialmente da exacta precisão da linguagem; e que hum Diccionario bem feito do idioma de qualquer nação, he o mais certo demonstrador do grao de perfeição, a que tem chegado nessa nação os conhecimentos uteis; claro está, que nem aquella precisão se pode alcançar, sem serem bem determinadas as differenças, ás vezes quasi imperceptiveis, que ha entre os vocabulos reputados por sinonimos; nem este Diccionario se poderá jamais dizer bem feito, sem que nelle se notem essas differenças.»=

O Sr. Roquete exprime-se assim:=«Seria affectação ridicula o não convir em que as mais das vezes é mui indifferente o seu uso, e em que os sinonimos podem ser mui uteis á poesia e ao discurso familiar; aquella para variar as cadencias e facilitar as medidas e as rimas; e a este para poder encontrar sem dilação a palavra que explique sufficientemente um pensamento que não exige uma rigorosissima escolha de termos. Porém, ao orador, ao philosopho, ao sabio, ao facultativo, que teem que dar á sua persuasão, ou á sua explicação, a maior precisão, e energia e clareza possivel, convem-lhes sobre maneira escolher aquellas vozes e termos que esmiúcem, por assim dizer, as mais pequenas modificações das ideias geraes, que apenas se distinguem no uso commum.»=

Posto isto, vejamos agora quaes subsidios possuimos neste ramo da nossa Litteratura:

Bluteau:
VOCABULARIO DE SYNONIMOS e PHRASES PORTUGUEZAS,

para facilitar composições em prosa, e em verso.
D. Fr. Francisco de S. Luiz (Cardeal Saraiva):
ENSAIO SOBRE ALGUNS SYNONIMOS DA LINGUA PORTUGUEZA.

1.° parte em 1824; 2." em 1828. J. I. Roquette : DICCIONARIO DOS SYNONIMOS DA LINGUA PORTUGUEZA.—

1848

Moraes, Constancio, etc.:
DICCIONARIOS DA LINGUA PORTUGUEZA, DAS EDIÇÕES DES-

TES ULTIMOS ANNOS.
Francisco José Freire (Candido Lusitano):
DICCIONARIO POETICO, para uso dos que principião a exer-

citar-se na Poesia: obra igualmente util ao orador prin

cipiante. — 1820. José da Fonseca:

DICCIONARIO POETICO E DE EPITHETOS. 1847.

O Vocabulario de Sinonimos de Bluteau, bem como os Diccionarios Poeticos de Francisco José Freire e de José da Fonseca, não são propriamente trabalhos philosophicos sobre os sinonimos, pois que não determinão as differenças que existem entre os vocabulos, tendo unicamente por fim poupar aos que escrevem em prosa, ou em verso, o incommodo de folhear Diccionarios, quando quizerem variar a phrase, ou dar um certo realce ao discurso

Debaixo deste ponto de vista, he incontestavel a utilidade de taes trabalhos; mas com referencia á precisão philosophica da linguagem, he certo que não podem ter o alcance do Ensaio e do Diccionario, acima apontados.

Quando Bluteau apresenta, por exemplo, o vocabulo Abrigo, dá-lhe por sinonimos os seguintes: Amparo, Guarida, Protecção, Defensa, Immunidade, Escudo, Patrocinio, Valhacouto, Asilo, Refugio; mas não caracterisa o valor de cada um dos diversos termos, não determina a sua especial significação, não fixa as differenças que os distinguem. Na pressa da composição, na urgencia da necessidade do momento, he fóra de duvida que acode um tal remedio; mas, ou presuppoem o conhecimento cabal da sinonimia, ou em caso contrario, a escolha do vocabulo preferido raramente satisfará ás exigencias da precisão philosophica.

Não se entenda, porém, que despresamos tão valiosos subsidios. Estamos muito longe de tal pensamento; quizémos unicamente dar a cada um o que lhe pertence, suum cuique. E para que não fique duvida sobre as nossas intenções, aconselharemos de passagem á mocidade estudiosa que procure lèr essas obras, onde hade encontrar bom soccorro. Se folhear o Vocabulario de Bluteau, encontrará até occasião de instruir-se agradavelmente. A proposito do vocabulo Adulação, diz Bluteau: Lisonja. Veneno suave. Doce engano. Louvor affectado. Fraudulenta meiguice. Estimação apparente. Urbanidade traidora. Cortezania servil. Melliflua perfidia. Hypocrisia da mentira. Artificio da conveniencia.-E deste modo pinta o author a fealdade da adulação, tornando mais odiosa, á força de sinonimia, aquella funesta disposição das almas vis.-Admiravel alliança das Lettras com a moral! E para que seria cultivá-las, se ellas não tornassem melhor o homem, e não lhe inspirassem o amor da viriude!

Em quanto ao Diccionario Poetico de Candido Lusitano, ver-se-ha o seu alcance, e especial fim, desde que se reparar nas seguintes palavras do author:=«Damos a cada vocabulo os seus sinonimos, não segundo o rigoroso sentido, e significação da nossa lingua, mas segundo aquella ampla liberdade, que somente soffre a linguagem poetica, tendo por verdadeiros synonimos os que na realidade o não são.- Este Diccionario não he menos proveitoso ao Orador Portuguez, que principia a exercitar-se. Nelle achará Synonimos, Epithetos, Frases, Descripções, Symbolos e Comparações, quando destes soccorros necessitar a sua oração.»=

O Ensaio, porém, de D. Fr. Francisco de S. Luiz, e o Diccionario de J. I. Roquete, —esses trabalhos, sim, merecem o recommendavel titulo de verdadeiros tratados de sinonimos.

D. Fr. Francisco de S. Luiz (Cardeal Saraiva), cujo nome illustre, por tantas vezes, havemos já nomeado e applaudido, acu

dindo ao reclamo da Academia Real das Sciencias, offereceu em 1822 aquella sabia corporação o Ensaio sobre os sinonimos da Lingua Portugueza.

O douto e incansavel Litterato merece os mais encarecidos louvores, por haver encetado uma empreza, para o desempenho da qual não lhe fornecião elementos os escriptos philologicos portuguezes. ¿Como procedeu, pois, em presença da quasi absoluta carencia de subsidios?= Quando, diz elle, nos Classicos de meThor nota achámos expressamente definida a differença de duas ou mais palavras havidas por synonimas, essa autoridade nos bastou, quasi sem mais exame, para adoptarmos a indicada differença; mas rarissimas vezes tivemos a satisfação de encontrar lào boa e segura guia.»=

Nos outros casos, recorreu á analise, á etymologia, á decomposição das palavras, á conferencia dos vocabulos semelhantes dag linguas analogas, aos tratados de sinonimos latinos e francezes; e sobre todos esses fundamentos formou o seu juizo.

Graças ao profundo conhecimento que o douto litterato possue dos nossos classicos, graças ao seu fino criterio, e apurado gosto, enriqueceu a Litteratura com um trabalho interessantissimo, e summamente recommendavel.

Que precisão de linguagem! Que lucidez de expressão! Que delicadas e finissimas apreciações de differenças quasi imperceptiveis!

= «He digno o que tem capacidade, idoneidade, aptidão: «merece o que faz, ou tem feito serviços. Todo o homem deve aempregar os primeiros annos da sua vida em fazer-se digno ados cargos da republica, por seus estudos e morigeração. Logo «porém que nelles entra, deve trabalhar por exercê-los de tal «modo, que mereça a gratidão da patria, e as distincções devidas <a quem a serve com intelligencia, fidelidade, e zelo.»

Dutro exemplo:

=«A satisfação he o sentimento, que experimentamos, aquando conseguimos o objecto de nossos desejos. -Se neste «objecto achamos o bem que esperavamos, a nossa alma desacança no gozo delle, fica tranquilla, não deseja mais: este he ao estado de contentamento.- Quem somente deseja o que basta «a suas necessidades reaes, com pouco se satisfaz, gosa tran«quillamente da sua mediocridade, não forma desejos inuteis, «vive contenté.— Pelo contrario o homem ambicioso, cubiçoso, cavarento, etc. nunca tem verdadeira satisfação, porque nada

«enche os seus desejos; sempre deseja mais: este estado he ab«solutamente incompativel com a tranquilla serenidade de es«pirito, que constitúe o estado de contentamento.»= Seja o ultimo exemplo o seguinte:

«O ser nobre depende das leis, ou da vontade dos prin«cipes: ellas e elles podem dar e tirar a nobreza. Mas o ser «illustre depende do merecimento proprio, e da opinião que delle «tem os homens, fundada em feitos uteis, gloriosos, esplendidos. «Cada um pode fazer-se illustre a si mesmo, sem dependencia «da autoridade publica, e talvez a despeito della. - homem «sem merecimento pode ser collocado na classe dos nobres, mas anunca será illustre. Ao contrario o heróe da virtude, o homem «de genio, o artista original, o grande escriptor, que talvez a «não alcança, nem pretende gráo algum de nobreza legal, póde «fazer-se illustre por suas obras, e merecer a estima, o respeito «e a fama esclarecida, que se não concede ao nobre, somente «por este titulo.)=

Com quanto encurtassemos cada uma das tres citações, ainda assim mesmo temos por certo que para todos os leitores fica sendo bem clara, e determinada, a differença que se dá entre ser digno e merecer; entre satisfação e contentamento; entre nobre e illustre. Tamanha perspicuidade e exactidão se encontra no illustre author do Ensaio! E ainda isso não he tudo, pois que sobresahe a consideração de que cada um daquelles artigos he, ao mesmo tempo, um formoso trecho de moral, e um admiravel tratado de philologia, exprimidos na mais pura, elegante, e castigada phrase.

O Sr. Roquette publicou em 1848 o seu Diccionario dos Synonimos, e cabe-lhe a gloria de haver alargado a esphera dos trabalhos do seu illustre predecessor, pois que o Ensaio só tem 380 artigos, ao passo que o Diccionario tem 866,- bem como a de haver desentranhado das paginas dos nossos classicos, e com especialidade das de Vieira, definições seguras para bem fixar a synonimia de muitas palavras.

O Sr. Roquette rende a devida homenagem ao illustre author do Ensaio, começando por dizer: «Apezar de que já uma «douta e elegante penna escreveu acerca dos Syn. da Ling. Port., «é comtudo entre nós fructa nova este genero de escritura.»

1 Leia-se a este proposito, no Tomo 2.o do Ensaio, o artigo Graça, merce, favor; o qual tão sentencioso tem sido julgado, que até como doutrina moral ha sido reproduzido Vej. o Panorama de 1842. pag. 240.

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