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guas orientaes e africanas, incluindo a arabe, com referencia á portugueza, são as seguintes:

VESTIGIOS DA LINGUA ARABICA EM PORTUGAL, OU LEXICON

ETYMOLOGICO DAS PALAVRAS E NOMES PORTUGUEZES,
QUE TEM ORIGEM ARABICA, COMPOSTO POR ORDEM DA
ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA.- Por Fr.
João de Sousa --augmentado e annotado por Fr. José
de Santo Antonio Moura.-1830.

GLOSSARIO DE VOCABULOS PORTUGUEZES DERIVADOS DAS

LINGUAS ORIENTAES E AFRICANAS, EXCEPTO A ARABE.-
Por D. Francisco de S. Luiz.-1835.

Começaremos, como he de rasão, pelos «Vestigios da lin

gua arabica.)

He incontestavel que da longa dominação dos mouros nas Hespanhas, resultou o ficarem nas linguas castelhana e portugueza, um grande numero de palavras arabes. Tot puræ arabicæ voces in Hispania reperiuntu”, disse Scaligero, ut ex illis justum Lexicon confici possit. Foi este o motivo porque Fr. João de Sousa, socio da Academia Real das Sciencias, e interprete da lingua arabica, se deu ao trabalho de fazer a interessante collecção de que nos occupamos.

Para bem entrarmos na intelligencia do espirito e intenção que presidirão a este precioso trabalho, e a fim de avaliarmos o alcance que elle tem, he mister ponderar que Fr. João de Sousa tencionava ao principio restringir-se as palavras arabicas que correm no uso vulgar. Este modo, porém, de tratar o assumpto era deficientissimo, por isso que ficavão assim excluidos um grande numero de termos, que se encontrão nas chronicas antigas deste reino, e nos documentos dos nossos archivos e cartorios; rasão porque o nosso author deu maior extensão ao seu Lexicon, ajuntando até as etymologias arabicas algumas hebraicas, persicas e de outras nações, mas só a respeito daquellas vozes que podião ser tomadas como arabicas, e não o são effectivamente.

Já antes deste philólogo, outros etymologistas se havião occupado, mais ou menos, deste assumpto: Duarte Nunes de Leão, na «Origem da lingua portugueza,» Manoel de Faria e Sousa,

na «Europa portugueza,» Bluteau, no «Vocabulario, etc.) Mas o primeiro confundio muitos termos com os primitivos e originaes da nossa lingua, como por exemplo Açotea, Alardo, Alarido, Alçada, Alcatéa, Alcaçús, e outros, verdadeiramente arabicos. O segundo nem accrescentou, nem corrigio, mas diminuío, pois que, tendo Duarte Nunes contado 207 nomes arabicos, Faria só conta, e sem rasão, 106. Bluteau, segundo diz Fr. João de Sousa, teve pouca escolha na deducção dos vocabulos, ou por que ignorava a lingua arabica, ou porque seguío authores menos instruidos nella; no entanto servío-lhe de muito, porque achou nelle muitos nomes que outros não trazem.

He Bluteau um daquelles poucos homens, a quem a posteridade não se cança de tecer elogios, e de pagar um tributo de gratidão e de verdadeira estima. Razão he esta por que aproveitamos a opportunidade que se nos offerece para, de passagem, assigoalarmos o muito que deve a nação portugueza a um estrangeiro, que consagrou longos annos ao estudo da nossa lingua, e a enriqueceu com um trabalho precioso, que faria honra a qualquer academia. Assim o reconhecêrão entre outros muitos, os authores do Diccionario da Academia, dizendo: «O muito que o infatigavel e erudilo Bluteau tentou fazer em beneficio da nossa lingua, de justiça deve merecer á nação portugueza não menor reconhecimento, do que a hespanhola dedica por igual motivo a D. Sebastião Covarrubias. O seu Thesouro da Lingua Castelhana, da mesma sorte que o Vocabulario portuguez e latino do sobredito Bluteau, forão os que anticiparão a ambas as nações o conhecimento da necessidade e fructo, que se dá em obras desta natureza.»

Voltemos aos «Vestigios arabicos.» O author examina no prologo qual a razão da origem persica que elle attribue a algumas palavras, que no seu Lexicon apresenta como taes, e depois de algumas ponderações conclúe que os termos persicos vierão para a lingua portugueza, ou 1.•—immediatamente da Persia por occasião do commercio, ou 2.°— dos paizes em que ficarão reliquias dos antigos Godos, ou Scytas, como são principalmente Allemanha, Paizes Baixos, e Inglaterra, ou 3.°—dos livros facultativos.

Fr. João de Sousa faz preceder o seu Lexicon de uma explicação sobre o artigo arabico Al nas palavras portuguezas. Esta voz al, que no arabe he um artigo, passou a ser entre nós um signal no principio dos vocabulos para distinguirmos os que são arabicos. - Palavras portuguezas arabicas se encontrão, sem ol, como por exemplo Adail, Arrabil; o que dá logar a ponderar

que tambem o elemento da pronunciação deve ser tido em grande conta nos estudos ethnographicos, pois que neste caso a lingua portugueza adoptou as palavras arabicas, taes como as pronunciavão os arabes. Dizião elles Aldail, Alrabil, mas pronunciavão Addail, Arrabil; ao passo que escrevião e pronunciavão como nós Almofaada, Almofaça, Almanjarra; o que vai prender com a divisão do alfabeto arabe em letras Solares e Lunares, como pode vêr-se no prologo citado. Cumpre notar que encontramos esta voz ál, como artigo, em Fr. Gaspar da Cruz, (Tratado em que se contão muito por extenso as cousas da China etc.)—passim — «Rendião só os direitos do sal em Cantão al, rei trezentos picos de prata.»

Nos nossos classicos encontramos esta voz al no sentido de outra cousa, abreviatura da latina aliud. Mor. Palm. d'Ingl. 1

15—«Vendo que não podia fazer al, senão seguir sua ordenança; » e até em adagios antigos: «Como vires o saval, assim espera pelo al;» e finalmente ainda em depoimentos de testemunhas se lè: e al não disse (et aliud non dixit.)

Em duas linguas tão diversas entre si, no que loca principalmente ao formal das palavras, e especial organisação de alphabetos, necessariamente havia de succeder que os portuguezes, ao adoptarem termos arabicos, augmentassem, ou diminuissem, ou trocassem lettras; e já se vê o quanto de cuidado deve haver da parte do etymologista em reparar em taes alterações, pois que he pela orthographia que mais facilmente se pode descobrir a origem das palavras. Ha, por exemplo, no alphabeto arabico algumas lettras de difficultosa pronunciação, gutturaes de diversas especies, que por não terem correspondentes na lingua portugueza, indispensavelmente havião de ser suppridas por outras que pouco mais ou menos reproduzissem os mesmos sons. Deve, porém, notar-se que não só esta circumstancia influío na corrupção que observamos nas vozes arabicas, adoptadas pelos portuguezes, mas tambem, e talvez principalmente, o pouco conhecimento que os nossos primeiros authores tiverão do caracter da sua lingua materna.-Fr. João de Sousa parece ter tido muito em vista estes principios, segundo concluimus das ponderações que faz a este respeito; o que muito abona em verdade o seu trabalho.

Suum cuique. Nos « Vestigios » as palavras precedidas do signal S são adiccionadas por Fr. José de Santo Antonio Moura, e as que levào o signal :sorão subministradas pelo Sr. D. Francisco de S. Luiz.

Pelas citações de authores que se encontrão nos «Vestignios » e de que no principio se apresenta o catalogo, vê-se que forão consultados muitos dos nossos classicos, historiadores, chronistas, e bem assim differentes Diccionarios e obras scientificas.

Passemos agora a fazer ponderações de outra ordem, que lamentamos não encontrar no prologo da importante obra de que estamos fallando.

Os profundos trabalhos dos ethnographos modernos têem demonstrado que do conhecimento das linguas, e do seu exame comparativo, póde tirar-se grande partido em beneficio das indagações historicas e geographicas, e até das scientificas. Nesta conformidade está consagrado em ethnographia o seguinte principio, que pode ser applicavel até certo ponto á nossa hypothese: «Un philologue veut-il savoir de quel peuple telle ou telle nation a reçu sa civilisation ? Il examine les mots de son vocabulaire qui expriment les animaux domestiques, les métaux, les fruits et les plantes économiques, les instruments aratoires et autres choses semblables, ceux qui désignent les idées morales et méthaphisiques, ceux qui se rapportent aux divinités, aux sacrifices, aux fètes, aux dignités, au gouvernement, à la guerre, à la législation, au commerce, à la navigation, à la littérature et aux sciences; il les compare avec les mots correspondans dans d'autres langues, et s'ils sont identiques ou ressemblans, il en déduit que cette nation a reçu sa civilisation primitive, sa religion, son systéme politique ou sa littérature, de telle ou telle autre. (Balbi. Introd. à l’Atlas Ethnographique).

Dissémos que este principio pode ser applicavel até certo ponto á nossa hypothese, por isso que he elle concebido em tal generalidade e extensão, que não pode referir-se na sua totalidade á lingua portugueza, com referencia ao arabe, visto como o portuguez se deriva essencialmente do latim, e só recebeu da lingua arabica uma influencia muito parcial. He, porém, certo, que essa influencia, embora muito parcial, he caracteristica e fortemente pronunciada. Um portuguez, que se deu com grande empenho ao estudo da nossa lingua, o Doutor Constancio, forneceu a M. Balbi alguns esclarecimentos, que muito fazem ao nosso caso: «D'après le nombre et la nature des mots arabes, diz elle, «introduits par les Maures dans les Dialectes du latin qu'on par«lait dans la péninsule hispanique avant l'invasion des peuples maahométans, il est aisé de se convaincre de la grande influence que ales arabes exercèrent sur la civilisation des nations Hispano«lusitaniennes, dont l'ignorance et la grossièreté formaient un acontraste frappant avec leurs conquérans policés, et aussi ins«truits dans les arts qu'habiles dans l'administration et la guerre. « En effet, la plupart des mots arabes qui sont restés incorpo«rés dans l'espagnol et le portugais, désignent des charges ci«viles, des emplois municipaux, des grades militaires, ou bien «appartiennent à la chimie, à la botanique, à l'agriculture, aux «poids et mesures à la medicine, à la navigation, aux arts et amétiers.»

Muitos exemplos comprovão esta asserção; por brevidade, porém, contentar-nos-hemos com as seguintes palavras: Almoxarife, a qual, segundo o nosso Fr. João de Sousa, vem da palavra arabe Almaxarraf, e vale tanto como eminente, condecorado, constituido em dignidade, honrado, etc.— Almotacel, do arabe Almohtacel, moderador dos preços dos mantimentos; curador, edil. - Alcaide, do arabe Alcaide, vem do verbo Cáda, capitanear, governar, puchar por um exercito, marchar na frente delle.--- Alféres, do arabe Alfáres, cavalleiro.- Arrais, Arráes, do arabe, Arraies, o capitão de uma embarcação, ou patrão de uma lancha; vem do verbo rasa, que significa ser eleito por cabeça, chefe, ou governador de um povo.

Almiranta; nem esta palavra, nem Almirante, vem nos «Vestigios.» Parece, porém, ser effectivamente palavra arabica, como se lê no Diccionario Castelhano, onde se diz que vem do nome arabe amil, ou emir, que significa o cabo ou capitão.-0 nosso Diccionario da Academia tambem o considera assim, e cita em abono desta etymologia Barros, Severim, e Villas Boas. — Alambique, do arabe Alambique; he voz grega, com artigo al arabico.- Almofariz, do arabe Almohrés, derivado do verbo harasa, pizar, maxucar, esmagar.-- Alqueire, do arabe Alqueile, derivado do verbo cála, medir.- Arroba, do arabe arrobó, derivado do verbo rabbaá, dividir em quatro partes. — Almude, do arabe Almodde, medida dos aridos que corresponde ao nosso alqueire, etc. etc. - Alfandega, do arabe alfandaq, que significa hospicio publico, onde os mercadores estrangeiros se aposentão com as suas mercadorias. Tambem em algumas terras do Oriente, nessas alfandaquas se cobrão os direitos reaes, e nesta accepção se usa entre nós.

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