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reino, são mais doces do que ocio, nocle, regno, etc.» (Nota 52,

pag. 78.)

Os cinco mappas polyglotlos de M. Balbi. - Ao, author da «Refutação» não escapou apresentar como argumento da origem latina da nossa lingua, o processo genealogico que a respeito de quasi 700 linguas e dialectos empregou M. Balbi no seu «Atlas Ethnographique. » — argumento consiste na seguinte idéa :tomando-se 26 palavras verdadeiramente essenciaes, que exprimão as idéas mais simples, e sem as quaes seja impossivel ao homem viver no estado social, e confrontando-as com as suas correspondentes de outras linguas, obter-se-ha o conhecimento das relações mais ou menos intimas entre as diversas linguas. -Quaes palavras escolheu M. Balbi? As seguintes: Sol, Lua, Dia, Terra, Agua, Fogo, Pae, Mãe, olho, cabeça, nariz, boca, lingua, dente, mão, , um, dois, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.—¿Quaes palavras correspondem a estas no latim? As seguintes: Sol, Luna, Dies, Terra, Aqua, Focus (ignis), Pater, Mater, oculus, caput, nasus, bucca (os), lingua, dens, manus, pes, unus, duo, tres, quatuor, quinque, sex, septem, octo, novem, decem.-¿Quem não vê as mesmas palavras nas duas linguas? Quem não vê a derivação facillima que ao primeiro intuito se conhece entre vocabulos dos dois idiomas, vocabulos que designão os objectos mais interessantes ao homem, e indispensaveis ao tracto social ?

Confrontemos agora os 26 vocabulos portuguezes, com os correspondentes do gaélico, e do welsh, representantes do antigo celtico:

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Mas para não cançarmos os leitores, não continuaremos na confrontação, e os remettemos para o Tableau Polyglotte des Langues Européennes do Atlas Ethnographique de M. Balbi; ahi verão que a dessimilhança entre o portuguez e o celtico prosegue tão pronunciada nas demais palavras, como nas que deixamos mencionadas.

As 26 palavras escolhidas por M. Balbi são mais do que sufficientes para fazer conhecer a familia a que uma lingua pertence; mas deve notar-se que este expediente só foi empregado para servir de regra nas linguas, a respeito das quaes não ha outros documentos, pois que nada adianta em quanto á classificação systematica dos dialectos de cada lingua, nem em quanto a demarcação que separa duas linguas muito similhantes, como por exemplo a castelhana e a portugueza. Vê-se pois que esta regra, se não he applicavel ás hypotheses que acabamos de apontar, he todavia muito concludente para estabelecer entre o latim e o portuguez esses laços de familia, que se pretendem demonstrar; ao passo que assignala a pronunciada diversidade que se dá entre a nossa lingua e a celtica.-Note-se igualmente que, se M. Balbi tratasse de confrontar somente o latim com as linguas derivadas dessa origem, poderia fazer uma vastissima escolha de palavras; mas o seu intento foi comparar 700 linguas e dialectos, e por isso escolheu 26 palavras, e designadamente as que preferiu, por isso que são aquellas que effectivamente os viajantes recolherão no maior numero de linguas, incluindo as dos selvagens. Demorámo-nos neste ponto um pouco mais do que o author da «Refutação », porque se trata de um assumpto que precisa de ser bem esclarecido.

Idioma dos nossos documentos e monumentos. Não he debaixo do ponto de vista da Paleologia e Diplomatica, que apresentamos as seguintes breves indicações dos nossos documentos e monumentos, mas sim como argumento linguistico, o qual terá tanto maior força na hypothese de que tratamos, quanto esses esclarecimentos são fornecidos por um author que impugna a origem latina da nossa lingua, e admitte a conservação da lingua original das Hespanhas atravez da dominação romana, e ainda dos godos, suevos e arabes.—João Pedro Ribeiro, na Dissertação 5.", que já citámos em um dos artigos antecedentes, considerando os nossos documentos com relação ao idioma, assigna duas epochas: — 1.o Até o estabelecimento da Monarchia ;— 2.* Desde aquelles tempos, e principios do seculo xii até o presente.

- A primeira epocha he por elle dividida em 4 periodos:— 1. Até o estabelecimento pacifico dos romanos na Hespanha no i seculo christão; -2.° Até invasão dos barbaros no v seculo;3.- Desde o v até o viri seculo, em que entrarão os arabes; 4." Do tempo do captiveiro dos mouros, e reinados dos reis de Leão e Galliza, até o estabelecimento do nosso reino. A 2. epocha he tambem dividida em 4 periodos, sendo o 1.o desde o Sr. Conde D. Henrique até o Sr. D. Affonso III, o 2.° desde o Sr. D. Diniz até o fim do reinado do Sr. D. Affonso v; 0 3.° desde

o Sr. D. João ii até o Sr. D. João III; o 4.° desde o Sr. D. Sebastião até o presente.

No 1.o periodo da 1.a epocha, além das moedas e inscripções, que nos restão (ainda achadas dentro de Portugal), Fenicias, Punicas, Gregas, e Romanas, temos outras em letras desconhecidas.

- Deste periodo faltao-nos documentos, e os monumentos são Fenicios, Punicos, Gregos, alguns Romanos, e outros em caractéres desconhecidos, e até o presente indecisraveis.

No 2.o periodo (1.a epocha) a lingua latina foi a geral dos documentos e monumentos e só destes nos restão.

No 3.° dos barbaros: (1.a epocha) continuou o latim nos documentos, e monumentos: mas daquelles ainda não conservão os nossos cartorios.

No 4.° periodo (1.' epocha) continúa ainda o latim nos monumentos e documentos; entre os refugiados nas Asturias, e terras dominadas pelos Reis de Leão, e entre os que ficarão no captiveiro dos moiros, o latim ficou sendo a lingua da religião e documentos publicos, o arabe dos particulares e da erudição.Alguns documentos nos restão ros nossos cartorios deste periodo, desde o ix seculo, no latim barbaro daquelle tempo: pouco mais antigos os conserva originaes o resto da Hespanha.

No 1.o periodo da 2.' epocha, isto he, desde o Sr. Conde D. Henrique até o Sr. D. Affonso III se empregou geralmente o latim corrupto em documentos e monumentos. Além de dois documentos em vulgar, anteriores ao Sr. D. Affonso 111, unicos que o Sr. João Pedro Ribeiro reputa genuinos, só desde o reinado do Sr. D. Affonso III, e desde a era de 1293 he que principião a apparecer alguns na lingua vulgar, posto que em menor numero, que no reinado do Sr. D. Diniz.—As inscripções, moedas, e medalhas, que nos restão deste periodo, são em lingua latina, e na mesma a legenda dos sellós. —Note-se que no livro 1.o da Chancellaria do Sr. D. Affonso 11, chamado 1.o das doações do mesmo Sr. no Real Archivo, são quasi todos os diplomas em latim.

No 2.o periodo da 2.a epocha, isto he, desde o Sr. D. Diniz até o fim do reinado do Sr. D. Affonso v, ainda apparece o latim em muitos documentos. Em um Livro de Registo da Chancellaria do Sr. D. Diniz, respectivo ás apresentações de igrejas do seu padroado, até 20 de Janeiro da era 1334, se achão todas as apresentações em latim. Neste periodo e no seguinte empregou-se a lingua latina nas moedas e medalhas. Em sellos só ap

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parece a vulgar em bem poucos: as inscripções são mais ordinariamente latinas.

Deixemos o 3.o e o 4. periodos, porque já não podem fa

zer ao nosso caso.

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Alteração e corrupção do idioma dos romanos. Este ponto foi magistralmente tratado pelo author da «Refutação», e para o que elle disse, desde pag. 61 a 68, remettemos os leitores. Apresentaremos, porém, aqui um breve resumo da sua doutrina, e pediremos licença para recordar os principios que deixamos provados no nosso artigo 10.o, taes como: disposição do latim para se alterar e corromper, proveniente da perfeição muito apurada desta lingua;— difficuldade que offerecia aos proprios naturaes;— tendencia das linguas para se tornarem mais claras; –differença de propagação entre as classes elevadas e as populares das provincias conquistadas;- necessidade que tiverão os prégadores do christianismo de se afastar das formulas sabias da lingua litteraria e oratoria para se fazerem entender do povo;adopção do latim pelos barbaros, e consequente alteração que deste facto havia de necessariamente provir. Presuppondo bem presentes estas idéas, e outras que tambem desenvolvemos, apoiados em opiniões de authores competentes, vamos dar em resumo o que muito judiciosamente escreveu o author da «Refutação»: -A lingua latina, pela sua mesma perfeição, pelas suas formulas grammaticaes, sabias e complicadas, pela variedade das suas construcções, era mais do que qualquer outra, sujeita a alterar-se, maiormente sendo fallada por tantos e tão differentes povos, quaes erão os que compunhão o antigo mundo. -Vierão os barbaros, e adoptando a seu modo o idioma do imperio romano, muito contribuírão para a corromper; como, porém, se convertessem ao christianismo, derão logar a que continuasse sempre a ser a lingua nacional, embora barbarisada no uso vulgar, mas ao menos susceptivel de uma tal ou qual correcção nos escriptos.-Succedêrão-lhes os arabes, e esses, com quanto não se convertessem ao christianismo, levárão todavia a sua tolerancia ao ponto de permittirem aos christãos o uso da sua religião, e por este modo contribuírão poderosamente para que a lingua totalmente se não extinguisse. Era, porém, tal a ignorancia em todas as classes, que a lingua latina se foi constantemente corrompendo, até a situação em que a encontramos no reinado do Sr. D. Affonso m. Entre tanto a maxima parte das palavras ficou sempre sendo a mesma; o fundo da lingua

vulgar continuou a ser latino, particularmente preponderante em todas as expressões da intelligencia e do sentimento; devendo notar-se esta circumstancia, pois què-do arabe tomamos sim bastantes vocabulos, mas todos relativos a artes e officios de segunda necessidade,-a chimica e a medicina, que elles cultivárão-e a algumas drogas orientaes ou de sua composição.

Neste estado de cousas, não podia já dizer-se que a lingua era latina, antes devemos suppôr que era já a formação muito imperfeita da vulgar de hoje. Mas em todo o caso, o latim conservou-se, mais ou menos puro, mais ou menos corrompido, nos claustros, como lingua que era da religião, e só quando o povo começou a não o entender, he que o Clero principiou a fazer as suas prédicas em romance, accommodando-se á rude intelligencia dos ouvintes desses nebulosos tempos.- De então para cá he já muito facil ir marcando as phases da lingua, isto he, o seu progressivo desenvolvimento, acompanhando o lento progresso da civilisação no povo. Chegou o seculo xvi, e já então apparecem grandes litteratos, que concordárão nas regras fundamentaes da grammatica e estructura particular da nossa lingua, e lá vão buscar á lingua latina as palavras que jazião no esquecimento, e que por ventura tinhão sido abandonadas, quando não erão precisas.

Terminaremos este assumpto da alteração da lingua latina, observando que he indispensavel, a quem quizer tratar a fundo a questão da filiação da portugueza, seguir passo e passo todo este longo e lento processo de transformação.

Argumento de paridade apresentado por Aldrete. «Si por « algun acaecimento se perdiese esta lengua Castellana, que oy « usamos, como le sucedió a la latina, que desó de hablar-se « vulgarmente, y dudasse uno: si los libros, que hallava escri« tos en romance eran de la lengua vulgar, que en España se « usava, deseo mucho saber, con que genero de prueba se ten« dria esto por bastantemente comprovado, para que assy se « creyesse, y deviesse entender. Porque si para mostrarlo se re« presentassen los sermones hechos al pueblo, si las historias, « si las cartas ordinarias familiares, si los versos y comedias, si a los processos de los pleytos, las leyes por donde se determi« navan, las piedras de sepulturas, o letreros, y todo lo demás, « que se hallava era romance, tendriamoslo por bastante prue« va ?»-(Veja Aldrete, Origen de la lengua Castellana, Libro 1.', cap. 10.)

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