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« cogitar humano, se coordenam, é caso impossivel imaginar, a que a fórma objectiva não se altere e não siga as alterações « do verbo interior....... Leamos uma pagina do Nobiliario at« tribuido ao Conde D. Pedro, uma cantiga do cancioneiro an« tigo, um capitulo de Fernão Lopes, ou da Traducção da Hisa toria Biblica: imaginemos, como exprimiriamos o que lemos a na linguagem de hoje commum desaffectada. Que acharemos? « Não será uma palavra, ou outra antiquada, para substituir, a mas a successão dos vocabulos para alterar, proposições para « trocar, syntaxe para regularisar, verbos para reduzir a outras a terminações nos seus tempos e modos. Se desattendessemos o « vocabulario para só acceitar, como prova da filiação as provas « da grammatica, ficariamos ás vezes perplexos sobre se deveria« mos conceder, que o portuguez de hoje seja o mesmo idioma, « ou antes idiomas, de que usavam os nossos avós nos seculos « 13.°, 14.o e 15.°»

Cremos pois estar demonstrado que, no exame da filiação das linguas devem preferir-se as conclusões, que resultão da comparação dos vocabularios, ás que se poderião tirar de certas affinidades, ou antinomia de indole.

2. Parte. --- Appliquemos agora este principio á nossa hypothese.

Denina · analisa na sua obra o primeiro soneto de Camões, e só encontra uma palavra, que julga não derivada do latim.O soneto he o seguinte:

Em quanto quiz fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Elle fez que seus effeitos escrevesse:

Porém temendo amor que avizo desse
Minha escriptura a algum juizo isento,
Escureceu-me o engenho c'o tormento,
Para que seus enganos não dissesse:

Oh vós, qu'amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades, quando lerdes
N'um breve livro casos tão diversos,

1 LaClef des Languer. Tom. 2. Part. 4, Sect. 2., Art. 24.

Verdades puras são, e não defeitos;
E sabei, que segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

E a palavra enganos he a unica, que elle julga não derivada do latim; se bem que haja quem a derive do latino ingenium, embora outros authores a tenhão por celtica.

. Toma depois seis estancias do canto 9.o dos «Lusiadas », e procedendo a mesma analyse, obtem o mesmo resultado, com referencia a lingua latina, chegando a traduzir litteralmente duas passagens do nosso poeta em latim, para melhor fazer notar a conformidade das duas linguas.

O poeta disse:

Mas firme a fez, e immovel, como vio,
Que era dos nautas vista e demandada.

E Denina traduziu assim para o latim: «magis firmam illam fea cit, et immobilem, cum vidit quod erat de (ab) nautis visa, et « demandata. (Ce dernier mot « demandata ) est latin barbare « dans le sens qu'il a ici, et généralement dans toutes les lan«gues sorties de la latine.)

O poeta disse:

se adornavão
Na formosa ilha alegre e deleitosa:
Claras fontes e limpidas manavão
Do cume, que a verdura tem viçosa: etc.

1

O Denina traduz: «Se adornabant in illa formosa insula, et « alacri, et delectosa, claræ fontes, et liquidæ manabant. »

Continuando esta comparação dos vocabularios latino e portuguez, se tanto fosse necessario, chegariamos a conclusão de que apenas uma mui limitada parte da lingua portugueza he estranha a latina.

1 Só em uma palavra destas estancias me parece ter-se enganado Denina, e he a palavra «viçosa » que elle deriva de outra que em italiano tem a signi. ficação de bella, quando aliás vem do verbo latino vigeo.

Denina leu liquidas em vez de limpidas; mas a sua observação tem igual fundamento, por isso que a palavra portugueza limpidas he a latina limpidus.

a. um.

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E não se pense que somente obteriamos este resultado nas obras de Camões; todos os nossos classicos, todos os nossos livros, toda a nossa linguagem do uso vulgar nos offerecerião os mesmos argumentos. Com razão, pois, diz o erudito author anonymo da Refutação: «Com effeito, eu convido o sabio author da « memoria a abrir o primeiro classico que lhe cahir debaixo da a mão, e a lêr uma longa pagina, e que diga depois se a im« mensa maioria das palavras não são latinas, ou derivadas ou « compostas de raizes latinas.»

Com a mesma razão exprime o citado Denina a seguinte opinião: «Le fond de la langue portugaise est autant ou plus « latin encore, que celui des autres langues méridionales, et mé« me de l'italienne....... On pourrait donner une longue liste « de noms, de verbes, d'adverbes que le Portugais a retenus du « latin, et qui ne sont restés ni à l'italien, ni au Français, ni à « l'Espagnol. »

¿Qual he a opinião mais geralmente estabelecida a respeito das quatro linguas do meio dia da Europa, Franceza, Italiana, Castelhana e Portugueza? Respondamos pelas proprias palavras de Denina: Toutes ces langues au reste sont de leur fond tellement formées de la latine, qu'on pourrait composer non seulement de pelits discours, mais des ouvrages volumineux, sans employer un seul mot qui n'eût pas sa racine dans le latin. Pois bem; a opinião mais geral he a da filiação latina a respeito de todas as quatro linguas, e de todas ellas he a portugueza a que conservou maior numero de palavras daquella origem, a que menos as desfigurou, e a que quasi na totalidade as conservou do mesmo modo que as recebêra da originaria fonte. ¿E poderemos acaso hesitar ainda sobre a filiação latina da nossa lingua ?

Mas as formas grammaticaes, e a syntaxe das linguas latina e portugueza diversificão entre si.

A este reparo responde o erudito author anonymo da « Refutação: »

«Se não existisse differença nenhuma entre as duas linguas, « então o portuguez não seria filho do latim, seria o mesmo la« tim, pois que essas differenças é

que

ellas sejam a duas linguas distinctas; e os pontos de similhança, que uma « seja procedente da outra. Ora estes pontos não se limitam só « ás palavras communs aos dois idiomas; estendem-se as cona strucções, á syntaxe, e a tudo que não depende dos casos. ¿Quan«do se diz: Mundus a Domino constitutus est, in principio crea

que fazem

vil Deus cælum el terram, templum de marmore ponam, pastor « ab Amphryso, não se diz assim mesmo em portuguez? a consa trucção é por ventura differente? A transposição em que tam« bem se faz grande reparo, aonde está ella nas obras de Santo « Agostinho, Eutropio, Sulpicio Severo, e muitos outros que é « inutil referir, e sobre tudo como se prova que ella tivesse lo«gar na lingua popular, tanto em Roma como nas provincias?»

3. Parte.-Falla-se em lingua popular, e he esta a occasião opportuna de averiguar, se quando se diz que o portuguez provém do latim, se entende o latim sabio de Cicero e de Cesar, ou antes o popular ou rustico, tal qual era fallado pelo povo de Roma e das Provincias.

Hallam na sua Historia da Europa na idade media, fallando da lingua latina, diz que ella nunca foi lingua vulgar na GrãBretanha, a despeito da opinião de Gibbon, o qual cita a authoridade de Tacito (Vida de Cn. Agric.) para demonstrar que a lingua de Virgilio e Cicero, ainda que com uma certa corrupção, se generalisou de tal modo na Grã-Bretanha, que apenas os rusticos e os montanhezes conservavão alguns vestigios dos idiomas punicos ou celticos; mas apenas uma passagem de Tacito poderia até certo ponto justificar Gibbon, e he aquella em que se diz que Agricola procurou inspirar aos filhos dos chefes bretões o gosto dos estudos liberaes, e que tão feliz fôra neste empenho, incitando-os com elogios dados á proposito, ut qui modo linguam romanam abnuebant, eloquentiam concupiscerent: daqui, porém, a adopção do latim como lingua nacional vae uma distancia infinita.

Se, porém, no conceito de Hallam, os romanos não estabelecèrão a sua lingua na Inglaterra, confessa todavia que conseguirão isso cabalmente nas Gallias e nas Hespanhas, por meio de uma mudança gradual, e não por uma innovação repentina e arbitraria; e depois accrescenta estas mui significativas palavras: «Mais, de ce que les habitants de ces provinces finirent « par adopter si bien ce latin pour leur langue naturelle, qu'on a ne pouvait peut-être découvrir dans leur dialecte usuel que aquelques légères traces de leur ancien idiome celtique, il ne « s'ensuit pas qu'ils parlassent cette nouvelle langue aussi purea ment que les Italiens, et bien moins encore que leur prononciaation correspondít aux sons écrits avec cette précision que nous a considérons comme essentielle à l'expression du latin.»

Crê-se, e he facil demonstrar, que ainda nos seculos da mais pura latinidade, existia alguma differença entre a lingua escripta e a lingua fallada, nem outra coisa podia succeder, visto como a severidade das regras da pronunciação necessariamente havia de ser modificada pela rapidez do discurso, maiormente na conversação, embora não o fosse nos discursos publicos, em que se empregavão escrupulosamente os preceitos dos rhetoricos. Ora, se o rigor das regras grammaticaes se afrouxava na conversação de pessoas polidas, por força de maior razão se daria esta circumstancia na linguagem do povo de Roma e de Italia, e ainda muito mais na do povo das provincias afastadas.

Airda isto não he tudo. Nos proprios tempos da mais pura latinidade, diz Hallam, servião-se os habitantes de Roma de um grande numero de termos, que hoje consideramos como barbaros, e de um grande numero de locuções que hoje rejeitariamos como modernas. Nem se pode conceber que fosse do uso geral essa syntaxe extremamente complicada, elliptica, obscura, e avara das partes destinadas a ligar o discurso,-syntaxe a que apenas se conformavão os mais apurados escriptores. Seria difficil particularisar hoje com individuação as differenças existentes entre o latim do povo e a linguagem polida, castigada e sabia de Cicero e Seneca; mas póde affirmar-se affoitamente que muitas palavras dos idiomas latinos modernos, que nos parecem estranhas á etymologia latina, se derivão de expressões que estavão em uso no seculo de Augusto, bem como, que certas locuções repugnantes a delicadeza dos entendidos, andavão no uso da lingua vulgar, e de lá passárão para o francez, italiano, etc. taes como certas proposições para indicar a relação entre duas partes da' phrase, relação que um classico exprimiria por meio de inflexões.

Além do exemplo das proposições, apresenta Hallam outros, e nesta parte traduziremos seguidamente o que elle diz, porque a sua doutrina confirma e esclarece alguns pontos que tocamos artigos antecedentes.

<A difficuldade de marcar bem a distincção dos tempos pa« rece ter dado origem ao verbo auxiliar activo, sendo possivel «que o fossem buscar as linguas teutonicas dos barbaros, e que a estes e os nacionaes o adaptassem a palavras de origem latina. « A decomposição facil de todas as especies de tempo da voz pas«siva produziu o auxiliar passivo, que os gregos por vezes em« pregavão, e de que os latinos usarão mais frequentemente. — « Não se descobre tão facilmente a justeza da applicação dos ac

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