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Se a estas ponderações accrescentarmos a observação feita pelo Sr. Herculano, de que a palavra lingua não tinha, para os authores antigos, a significação mais precisa, que hoje lhe damos, nem importava necessariamente uma distincção profunda de indole e vocabulos entre ellas, podendo por isso equivaler muitas vezes a dialecto, deveremos concluir que as passagens de Strabão, Cicero, Plinio; e Tacito, citadas na Memoria» do Sr. S. Luiz e no «Opusculo»--só poderão provar a existencia de variedades de pronuncia, e ainda de expressões locaes, sem que d'ahi se haja de concluir, que o latim não era a base da lingua.

S 5.°

THEONLS BEKAL DA FILIAÇÃO DAS LINGUAS, E SUA APPLICAÇÃO Á LINGUA PORTUGUEZA.

He meu intento reunir neste S os argumentos, com que pode demonstrar-se: 1.-que a filiação das linguas deve antes ser deduzida da comparação dos vocabularios, do que da conformidade, ou differença das formulas grammaticaes e da syntaxe; 2.0 —que este principio, applicado á lingua portugueza, dá em resultado a origem latina; 3.'—que quando neste sentido se falla da lingua latina, devemos entender a lingua popular, e não o latim litterario, ou oratorio de Virgilio ou de Cicero.

1. Parte.-Os defensores da origem celtica da nossa lingua, depois de apresentarem o argumento da quasi impossibilidade da transformação da linguagem,-argumento que examinámos no S antecedente, -recorrem a outro principio, qual he o de que a filiação e parentesco das linguas não se devem procurar nos particulares vocabulos de cada uma, considerados separadamente, e sem a fórma, ordem, ligação, e emprego, que os faz servir á pintura e expressão do pensamento; ou por outras palavras, que não são os vocabulos que as linguas tomão umas das outras, nem as etymologias, que nos hão de dar a conhecer a origem e o parentesco dos idiomas; mas sim o genio e caracter de cada um.

Examinaremos este principio, apresentando as observações que encontramos em bons authores.

Existe entre todas as linguas um certo parentesco, que se revela tanto nas palavras, como nas raizes. As raizes são os germens das palavras; são monosylabicas, compõem-se ordinaria

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mente de duas consoantes separadas por uma vogal, ou de uma só consoante precedida ou seguida de uma vogal, e com quanto pouco numerosas, constituem todavia o fundo de todas as linguas presentes e futuras, como sendo a essencia da palavra, e por isso immutaveis. Nas palavras possibilidade e circumstancia, temos a raiz pos, e a raiz st; a raiz pos representa a idea de

poder, a raiz si a de estar em pé (stare).

A raiz não he uma palavra, mas sómente uma indicação de uma idéa; della se derivão os vocabulos, que depois se manifestão sob a forma do verbo, do adjectivo, do substantivo, do pronome, e até da particula.

Ha duas especies de affinidade entre os idiomas do globo, consistindo a primeira nesses laços communs de parentesco, revelado por um grande numero de vocabulos, que em linguas de povos mui affastados uns dos outros, têem conservado o mesmo significado e o mesmo som; e a segunda, verifica-se nos idiomas dos povos, cujas relações, communicações e tratos mutuos são attestados pela historia, encontrando-se por isso nelles não só palavras com o mesmo significado e som, mas até em alguns casos uma certa coincidencia de construcção grammatical. A primeira póde denominar-se affinidade primitiva, a segunda affinidade de familia. -A primeira e a segunda têem de commum o elemento comparativo das relações que se observão entre as raizes primarias e essenciaes das linguas; estudo difficil, e que demanda grande e escrupulosa attenção, por isso que as formas radicaes tambem são variaveis nas differentes linguas, e por vezes succede, que as variações e mudanças que observamos embaração o nosso juizo. Estas variações e mudanças prendem com as alterações das vogaes e consoantes nas palavras das differentes linguas, alterações tanto mais consusas para nós, quanto são imperfeitos os alphabetos europeus, muito inferiores ao alphabeto sanskrit, que ainda assim não parece cabal e perfeito aos ethnographos mais abalisados.

Deixando, porém, esta parte da ethnographia, que demanda um desenvolvimento especial, tratemos de aproximar-nos mais da questão acima proposta.

Se a decomposição e a analyse comparativa das raizes servem de grande auxilio aos ethnographos para determinarem a affinidade das linguas, de quanto maior e mais immediato soc

1. Veja o excellente artigo Langues de Klaproth na Encyclopédie Moderne.

corro lhes não servem os vocabulos completos, quando identicos, ou ainda mesmo um tanto alterados nas suas desinencias, e feições ? Se a lingua latina diz, por exemplo, monstrare, minutus, frenum, arena, mensa, e a portugueza diz: mostrar, miudo, freio, area, mesa, como não acharemos estreitas relações entre as duas linguas, que nestes nomes se apresentão uniformes e unisonas? Será bastante rasão para excluirmos essa identidade a circumstancia da exclusão da letra n nas mesmas palavras em que a latina a empregou ? Será tambem rasão bastante esse quasi imperceptivel matiz de diversidade de desinencia? Ninguem o dirá. Apresentemos, porém, outras series de palavras latinas e portuguezas, para tornar mais sensivel esta idéa. Os latinos dizião: nubes, imago, margo, homo; e nós dizemos: nuvem, imagem, margem, homem. Os latinos dizião: numen, nomen, lumen, pecten, gluten; e nós dizemos: nume, nome, lume, pente, grude; os latinos dizião: ars, mors, fons, sors, pons, mons, dens, e nós dizemos: arte, morte, fonte, sorte, ponte, monte, dente. Quem não vê a permanencia dos mesmos sons, do mesmo formal dos vocabulos, a despeito das leves modificações de desinencias, ou da differente collocação, ou mesmo perda de uma lettra ?- Por estes exemplos, e infindos outros que podéramos apresentar, vêse que fôra impossivel, direi mais, fora até absurdo desprezar, na apreciação da affinidade das linguas, o elemento da identidade dos vocabulos, maiormente quando elles apresentão os mesmos sons e a mesma significação. Outro sim he claro, que menos bem se houverão os authores que derão maior importancia as indicações da grammatica, do que ás dos diccionarios, pois que, em ultima analyse, estabelecerão pela sua doutrina uma preferencia injusta do accidental sobre o real e essencial.

Se considerassemos os vocabulos unicamente como signaes de sons, e seus depositarios na escriptura, abstrahindo do destino que elles têem de significarem e exprimirem o pensamento, he evidente que nada mais serião então do que entidades sonoras, estereis e sem a menor importancia psychologica. Mas o caso he outro; e a não ser assim, a ethnographia nada mais seria do

que o trabalho vão de uma curiosidade pueril. A ethnographia, quando decompõe e analysa as raizes, considera-as como indicadoras, de ideas, e por força de maior razão os vocabulos completos. Se pois os vocabulos são tomados como reveladores das cogitações humanas, como interpretes do pensamento, como expressão sensivel de idéas, he indubitavel que formão a essencia das linguas, e que a grammatica, dando-lhes uma forma, coordenando-os no discurso oral ou escripto, nada mais he do que um accidente, variavel segundo o maior ou menor adiantamento dos povos, segundo o maior ou menor desenvolvimento da sua intellectualidade. «Les racines et les mots, diz Klaproth, sont l'étoffe des « langues: la grammaire donne une forme à cette étoffe; les lan«gues ne changent pas essentiellement, de même que le diamant « reste toujours diamant, de quelque manière qu'il soit taillé.)

He neste sentido, que o sabio Humboldt disse: «As noções « grammaticaes residem muito mais no espirito dos que fallão, «do que na parte das linguas que pode chamar-se material.» E com effeito; o estudo das formas grammaticaes, das variações da syntaxe, e da indole das linguas, be interessantissimo para avaliar e conhecer os progressos e aperfeiçoamento do espirito humano, mas de bem pouco ou nada servirá para determinar a derivação ou filiação das linguas, porque a grammatica he um elemento variavel, accidental, transitorio, em quanto que as raizes, e os vocabulos

que

dellas se formão, são estaveis, conformes, e identicos, ou pelo menos sempre susceptiveis de serem reconhecidos.

Parece pois destituida de todo o fundamento a seguinte opinião de João Pedro Ribeiro (opinião que, como vimos, adoptou tambem o Sr. P. S. Luiz, e antes delle Girard e Beauzée : «A «affinidade e filiação dos idiomas não se deduzem da similhança «dos vocabulos, mas da sua syntaxe, e mechanismo, em que as « linguas da Hespanha se distinguem evidentemente da Latina, «e dos outros povos, que nella entraram.»

E pelo contrario parece muito plausivel a seguinte doutrina do Sr. A. Herculano: «O pensamento de Girard e Beauzée e dos que o imitaram e traduziram é paradoxal e falso, assim no concreto da questão especial que nos occupa, como no absoluto da theoria que estabelecem de rejeitar as similhanças dos vocabulos para

deduzir as origens exclusivamente das formulas grammaticaes ou indole da lingua. Os serviços que a Ethnographia tem feito nestes ultimos tempos á historia seriam em boa parte annulados se tal doutrina se houvesse de admittir. É

empregando os dois meios, o da grammatica e o das palavras, que se tem podido chegar a estabelecer as grandes familias das linguas, e a respeito daquellas a que por imperfeitamente conhecidas não é ainda possivel applicar o primeiro, os maiores ethnographos não tem duvidado em classifical-as usando só do segundo, quando é evidente a analogia radical de duas linguas nas palavras que re

presentam as ideas mais simples e necessarias a qualquer povo, embora selvagem, ou apenas entrado na infancia da civilisação.» (Panorama 14 de Dezembro de 1844).

Na Carta de Malte-Brun a Balbi, inserta na Introducção ao Atlas Ethnographique du Globe, lê-se o seguinte pensamento: «Outre les résultats que produit le mélange pur et simple des «idiomes, considérés comme des ensembles de racines, il faut « encore reconnaître la libre action de l'intelligence humaine, « qui en modifie à on gré les formes grammaticales, et qui peut a même assujétir des idiomes entièrement divers à une législa« tion commune. »

Se por este ponderoso motivo não podem as formulas grammaticaes fornecer um principio geral e absoluto de classificação, muito menos podem regular o exame da filiação de determinadas linguas, por isso que pode succeder que dois idiomas se assemelhem nas formulas grammaticaes, e com tudo pertenção a diversa familia, e vice-versa, que entre elles haja antinomía de indole, e comtudo pertenção a mesma familia. « Lorsque deux « langues, diz M. Klaproth, ont perdu cet air de famille qui les a fait reconnaître, du moins cette incertitude ne nuit pas aux « conséquences qu'on peut tirer de la ressemblance de leurs a mots. Par exemple, on ne doute plus aujourd'hui que le pera san et l'allemand n'appartiennent à la même famille; mais si « l'on n'avait comparé que les grammaires de ces deux langues, « on aurait difficillement obtenu ce résultat; de même qu'on ne « trouverait qu'avec peine des ressemblances entre l'anglais et « l'allemand, à ne considérer que la grammaire de ces deux idio« mes, et sans s'attacher à l'examen des mots. »

O methodo comparativo applicado á grammatica he incontestavelmente muito apreciavel; mas parece mais proprio, como já indicámos, para nos guiar no estudo dos progressos do espirito humano. É tanto he isto assim, que esse methodo applicado a differentes periodos de um dado povo pode dar em resultado certas modificações grammaticaes de grave ponderação, apresentando diversas phases de indole na mesma lingua. E porque? « Por isso, que as linguas, como admiravelmente diz o Sr. Hera culano, seguem sempre, especialmente na syntaxe, o desenvol« vimento ideologico dos povos que as fallam. A proporção, que a as idéas se multiplicam e novas relações se vão encontrando a entre ellas —que estas se tornam complexas por um lado, e «por outro se vão subdividindo-que emfim os elementos do

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