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Já se vê pois que no tempo de Cicero não era possivel que se tivesse já operado, em grande escala, a transformação dos idiomas da Hespanha; ao passo que, quando Strabão escreveu a sua grande obra geographica, já essa transformação havia adquirido mais alguma força, e muito maior adquiriu posteriormente quando Aulo-Gellio escreveu as Noites Atticas, nas quaes encontramos uma prova muito positiva de ser a lingua latina a lingua patria no tempo de Hadriano.

Analysemos, porém, essas passagens, que os defensores das origens celticas adduzem em abono da sua opinião.

O Sr. S. Luiz apresenta na sua «Memoria, como demonstração da existencia e uso das linguas vulgares das Hespanhas no periodo da dominação romana, o testemunho de varias passagens de Cicero, sendo a principal a seguinte, que se lê na oração pro Archía Poeta: «Græca leguntur in omnibus fere gentibus: Latina suis finibus, exiguis sanè, continentur.» E accrescenta estas palavras: «expressões notaveis, que parece indicarem que a lingua latina sómente era conhecida e fallada no Lacio, ou quando muito na Italia (suis finibus), e das quaes o sabio orador não usaria, se já então a lingua latina fosse não só conhecida e fallada, mas até vulgarmente usada nas vastas regiões das Hespanhas.»

O author da «Resutação» impugna, a nosso vêr, triumphantemente esta interpretação dada ás palavras de Cicero, pelo que remettemos os leitores para a nota 39 de pag. 62 e 63 do seu Opusculo.

O author da «Refutação» entende que a expressão suis finibus se refere aos limites da poesia, e não aos do imperio, por que os poetas romanos são todos posteriores a Cicero, á excepção de Lucano, ao passo que os poetas gregos eram anteriores, e n'essa épocha lidos de todos. Demais, o Sr. S. Luiz entende que d'aquella e outras passagens de Cicero se collige quão pouco estimada era a lingua latina dos proprios romanos no tempo do illustre orador; e o author da «Refutação» traduziu a passagem inteira, e segundo ella viu que Cicero disse, como argumento em favor do poeta grego Archía, «que se alguem pensa que da poesia agrega resulta menos gloria que da latina, grosseiramente se en«gana, porque o grego se lê em toda a parte, o latim em seus «estreitos limites.» É claro pois que não estava em desestimação a lingua latina, porque, se assim fosse, não impugnaria Cicero a preferencia dada á poesia latina sobre a grega, no sentido

de recommendar o seu cliente. Por conseguinte, nem a allusảo de Cicero prova que a lingua latina não era estimada no seu tempo, nem parece referir-se á estreiteza dos limites do imperio romano, que n'esse tempo erão a Hespanha e o Euphrates, mas sim aos da poesia romana dessa epocha, antes da qual só Lucano havia já escripto o seu poema de Pharsalia (e note-se que Lucano era hespanhol, e nascéra em Cordova).

Concedendo, porém, que a expressão suis finibus se refere aos limites do imperio, como quer Aldrete, dizendo: «Suis finibus imperii nimirum Romam, exiguis tunc nondum pacatis provinciis,» ainda assim não prova de modo algum o que se pretendeu inculcar.

Transcrevamos toda a passagem completa, e depois d'ella as observações que o erudito Aldrete apresenta:

«Nam siquis minorem gloriæ fructum putat ex græcis ver«sibus percipi, quam ex Latinis, vehementer errat, propterea «quod Græca leguntur in omnibus sere gentibus, Latina suis fi«nibus exiguis sanè continentur. Quare, si res eæ quas gessi«mus orbis terræ regionibus diffiniuntur, cupere debemus quo «minus manuum nostrarum tela pervenerint, eodem gloriam, «famamque penetrare.»

«Grandes humos de vanagloria, que llegan a punto, que se procure, que las hazañas hechas por los romanos, por que su fama no se encerrasse en los limites de las provincias, que ellos iban conquistando, que le parecian a Ciceron pequenos, y estrechos, devian los romanos dessear, que mediante la lengua griega, que corria mas entonces por el mundo, la gloria, y fama de sus proezas llegassen donde no avian alcançado las armas de sus manos. Pero de manera se aventajaron ellas, que en ciento y cincuenta ałos después, que huvo hasta tiempo de Plutarco, y de Quintiliano, hizieron en el mundo tal mudança, que se estendió mas la lengua latina, que lo avia estado la griega, y llegó

lo que aquella no pudo arrivar, que todos los hombres la hablavan, como dize Plutarco, y Quintiliano añade, que se usaba mas que la griega, y como natural no era menester aprenderla, porque sin enseñarla, ella misma se dava y nacia: A sermone Græco puerum incipere malo, quia Latinus, qui pluribus in usu est, vel nobis nolentibus se perhibet. (Qui pluribus, quam Græcus in usu est.) Entre las dos haze la comparacion, y mas usado era ya el latin, que non el griego, y este era menester aprenderlo, y aquel no, el uno como peregrino costava trabajo el saberlo, el

a

otro como de casa de propria cosecha, aun sin querer se aprendia. Quien esto tuviere por difficultoso, considere lo que en poco mas de cien años ha crecido la lengua castellana, después que Granada se ganò.»

Outras allusões se citão, taes como as seguintes:

« Tanquam si Pæni aut Hispani, in Senatu nostro sine in« terprete loquerentur. » (Cic. de Divin. L. 2, cap. 24.)

«Quot hominum linguæ tot nomina Deorum: non enim, ut «tu Velleius, quocunque veneris, sic idem in Italia Vulcanus, a idem in Africa, idem in Hispania.» (Cic. De nat. Deor. L. 1,

« cap. 30.)

Mas estas allusões, além de serem de uma epocha, diz o Sr. A. Herculano, em que nada se oppõe a que ainda existisse em algumas povoações a linguagem celtica, phenicia, grega, punica, ou outra composta de todas ellas, essas passagens podem referir-se á lingua hespanhola das montanhas septentrionaes, onde o euskara ou vasconço resistia ao predominio do latim, como até hoje tem resistido ás linguas derivadas deste.

Uma passagem de Tacito, Annal. lib. 4, relativa ao hespanhol Termestino, que assassinára o pretor Lucio Pisão, he tambem adduzida pelos defensores da origem celtica, como testemunho de que ainda no reinado de Tiberio persistia o uso da lingua nacional dos hespauhoes. Eis o que diz Tacito: «Cum tormentis edere conscios adigeretur, voce magna, sermone patrio, frustra se interrogari clamitavit.»

¿Mas, quem asseverou que no reinado de Tiberio se tivesse generalisado já o idioma dos romanos na Hespanha, a tal ponto que muitas povoações, e por força de maior rasão os montanhezes e innumeros individuos não fallassem ainda a lingua celtica, ou outra qualquer mesclada de tantas, que por ventura tiverão voga na peninsula iberica ? Fazem-se por ventura repentinamente as transformações da linguagem dos povos? --Ouçamos o sabio Klaproth: «Il y a sans doute des idiomes qu'on ne parle plus, et d'autres qu'on parle encore; mais les uns n'ont pas cessé au moment où les autres ont commencé: au contraire, ceux-ci ne sont que des modifications ou phases de ceux-là. Il n'y a point de limite fixe l'on puisse dire qu'une langue finit et que l'autre commence: c'est une dégradation journalière, dont les nuances imperceptibles et successives ne deviennent sensibles que par des comparaisons faites à de grands intervalles. E assim he; a transformação da linguagem vae operando-se pouco e pouco, lentamente, atravez da successão dos tempos, atravez das successivas phases da vida dos povos. D'est'arte se explica o famoso dito de Plutarcho: Quod mihi in mentem venit de Sermone Romano dicere, quo sanè hoc tempore omnes fere mortales utuntur. (Lib. de Quæstion. Plato. circa finem). Plutarcho escrevia no tempo de Trajano, isto he, mais de cem annos depois do nascimento de Christo, e por esse tempo já as provincias gosavão de paz, já se havia estabelecido o trato, a amizade, e até o parentesco por meio de casamentos entre os romanos e os moradores das provincias; já estes erão admittidos ás honras, aos cargos, aos privilegios de cidadãos, de sorte que já se achavão todos confundidos, e no uso commum da lingua latina.

Não nos contentemos, porém, ainda com estas ponderações; entremos mais no amago do assumpto, até encontrarmos uma explicação, que não só torne sustentavel a opinião da origem latina em presença

do
que

Tacito diz do Termestino, mas em presença de todas as passagens que citão os defensores da origem celtica.

¿Em todas as provincias do imperio romano se introduziu ao mesmo tempo a lingua latina ? Em todas se operou a transformação do mesmo modo, nas mesmas epochas, com as mesmas circumstancias, com a mesma força, com os mesmos resultados? Poderá acaso admittir-se que uma tal mudança se operasse simultaneamente, e de um modo uniforme em todas ellas?

A rasão responde negativamente, ao considerar-se que a respeito de umas se davão maiores impedimentos do que a respeito de outras. Estas forão conquistadas mais cedo, e os povos se prestárão mais facilmente á sujeição romana; aquellas só tarde, e depois de duras e prolongadas guerras, dobrárão o collo á conquista. Aqui os povos erão mais brandos, talvez mais dispostos a acolher a civilisação; além menos doceis, mais presados da sua liberdade, por ventura mais ferozes, ou mais apaixonados pela sua independencia. Até o orgulho de fallar uma lingua, que presumião preferivel a dos conquistadores, impedia alguns de acceitar o idioma dos romanos, como succedeu aos gregos!

¿Estará por ventura a historia de accordo com estas inducções naturaes? Sim. Segundo o testemunho de Strabão, já citado, forão os turdetanos os primeiros que na Peninsula Iberica receberão a lingua e a civilisação romana; seguirão-se os celticos, os turdulos, e os celtiberos, ficando em ultimo logar os po

vos da parte septentrional até as montanhas, onde, por bom signal, entretinhão os romanos, nos primeiros tempos do imperio, dous terços da guarnição de toda a Peninsula.

Strabão assistiu á divisão, que, no tempo de Augusto, pouco mais ou menos 25 annos antes do nascimento de Christo, se fez das provincias romanas, e assim a descreve: «Nostra quidem tempestate provintiis aliis, S. P. Z. Romana adsignatis, aliis Principi, Bætica populo attributa est, mittitur que in eam Prætor cum quæstore, et legato. Finis ei versus orientem constitutus est proxime Castaonem, reliqua est Cæsaris, et in eum mittuntur duo legati prætorius et consularis. Quorum ille jusdicit Lusitaniæ, quæ attingit Bæticam, et porrigitur usque ad Durium omnem, et ejus hostia, sic enim proprie illam regionem nominant, ibi que est Augusta Emerita. Reliqua et quidem maior pars Hispaniæ subest consulari legato, qui exercitum habet non contemnendum trium circiter cohortium, ac tres legatos. Horum prior cum duabus cohortibus custodit totum trans Durium versus setemptrionem tractum qui olim Lusitania, nunc Callaica dicitur. Hunc attingunt setemptrionales montes cum Asturibus et Cantabris. Tertius mediterranea regit, atque continet, pacatos jam populos et mansuetis jam moribus, et cum Toga formam indutos Italicum, ii sunt celliberi, et qui in propinquo utrinque ad Iberum accolunt usque ad maritima. Ipse præfectus in maritimis hiemare solet jus dicendo maxime Carthagine, aut Tarracone. »-Fica, pois, bem claro esse processo de transformação; aqui já facil, já quasi completo nos povos pacificos e de brandos costumes; além demorado, difficultoso, e, por ventura, renitente nos povos do norte e nas montanhas.

¿Que admira, pois, que ainda no reinado de Tiberio apparecesse o rustico Termestino, de que falla Tacito, exprimindo-se ainda na linguagem antiga celtica, sendo habitante da parte septentrional da Hespanha, onde ainda a civilisação de Roma não tinha podido calar? Antes este facto póde provar o contrario do que pretendem os defensores da origem celtica, pois que, servindo-me das expressões de Aldrete; «Si en toda la provincia no se hablara sino la lengua antigua natural, escusado fuera que Cornelio Tacito hiziera mencion de ello, pero hizola por cosa notable, assi en el hecho, y exagerarlo, como tambien por la respuesta, y assi se escrivió à Roma, y él la escrivió en sus Annales, pués en ellos se notó, el aver usado la lengua de la tierra.»

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