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cativos da alegria, da dør, do temor, todas as mais interjeições são arbitrarias ou de convenção; porque aliás serião similhantes em todas as linguas.

Onomatopéas. -As onomatopéas não são uniformes em todas as linguas. Nós dizemos, por exemplo, truz-truz o som de bater a porta, os francezes dizem pan-pan; nós designamos por catrapoz o som do galope do cavallo, e elles dizem patapan.

Vocabulos da infancia. Se ha palavras de convenção, nenhumas o são tanto como estas, porque não são senão um arremedo das palavras usuaes da lingua do paiz, que se estropião de proposito para as tornar de mais facil pronunciação aos meninos. As palavras amo, boca, beijo, bico, teta, mano, etc., citadas como pertencentes a infancia, não são senão palavras geraes e communs da lingua. O que se chamou numerosissima familia reduz-se, quando muito, a uma duzia de vocabulos. (Vej. o longo e espirituoso desenvolvimento deste resumo na «Refutação»).

Vocabulos derivados ou compostos de palavras latinas. --Os latinos tinhão a palavra virtus, mas não tinhão virtuosus, nem virtuose, de sorte que para dizerem: Tu és virtuoso, dizião

- Tu es virtute præditus. Na decadencia da lingua suppriu-se esta falta, fazendo-se de, virtus, virtuosus, e nós adoptámos virtuoso, virtuosamente, desvirtuar. Sendo pois tão legitima esta origem, tão incontestavel, como he possivel negar-lhe a sua procedencia do latim? Poderião citar-se innumeros outros exemplos; basta porém observar que, se os vocabulos são derivados de uma palavra latina, segundo o genio da nossa lingua, não se póde recusar a essa raiz a faculdade de tomar todas as terminações que a nossa lingua lhe possa dar.

Vocabulos tomados do grego e do celtico.-- Admittida a exigencia de se tirarem da lista dos vocabulos latinos aquelles que os romanos tomárão dos gregos, não viria a palavra Deos da latina Deus, por isso que os latinos a tomárão de Theos, ou de Dios, genitivo de Zeys. Ainda aquella exigencia poderia ter logar a respeito das palavras technicas e scientificas, porque taes termos são universaes; mas não pode ser extensiva aos que tomámos immediatamente do latim e como latinos, sem nos insormarmos da sua origem. Igual exigencia se apresenta a respeito do celtico, justificando-a com o exemplo da palavra donzel, que pretendem derivar de dum, dom, em vez de domicellus; mas he

donzel vem de dono, syncopado de dominus, como pode

certo que

ver-se em Denina, e em Romani (Dizzionario de sinonimi italiani) que diz assim: Donzello é il diminutiro di donno. Questo nome, equivalente al latino Dominus, significara anticamente signore; e percio il suo diminutiro donzello indicara un giovin signore. Não se pode asseverar que recebemos directamente dos gregos certos vocabulos que se não encontrão no latim, porque não temos todos os authores latinos para sabermos se os usárão. ¿Será, porém, verdade que os gregos, em tempos antiquissimos, fundárão colonias na Galliza e na Lusitania, e nos deixárão esses termos a que acabamos de alludir? Não ha fundamento para assim o crer. Donde nos virião pois esses vocabulos gregos que temos, e se não encontrão no latim? Ou do latim vulgar, sem terem sido empregados pelos escriptores, o que he plausivel, visto como são pela maior parte populares, v. g. patao, apito, lasca, lamuria, naco, etc., ou dos barbaros, em consequencia da communicação que por muitos seculos tiverão com os gregos do Baixo Imperio. O argumento da troca do b pelo v não tem força. Muitos povos fazem esta troca, principalmente os de origem celtica; em alguns dialectos não ha mesmo a letra v.

Vocabulos verdadeiramente latinos, mas introduzidos muito modernamente no portuguez.—São os escriptores que aperfeiçôão as linguas, e este difficil trabalho he obra de longos annos, e de continuas acquisições. Dando, porém, de barato que os escriptores do seculo xvi introduzissem 300 a 500 palavras latinas no portuguez... que he isto, em comparação de 30 a 40 mil, que tantas temos do latim ?

Temos extractado o que de mais substancial encontramos na « Memoria» e na «Refutação.» A concisão era o nosso primeiro dever, porque d'outra sorte houveramos copiado, quando só queriamos fazer a resenha dos argumentos dos dous contendores. Escapárão pois bastantes considerações, e pontos de doutrina, que muito interessarião aos curiosos; promettemos, porém, supprir esta falta nos paragraphos que havemos de consagrar ao exame das questões ethnographicas, que se enlação com este assumplo.

Antes, porém, de passarmos adiante, temos por conforme a imparcialidade, que deve caracterisar o nosso trabalho, — 1.° dar uma breve ideia dos argumentos, com que um author francez impugna a filiação latina da sua lingua; -2.° dar uma rapida noticia dos manuscriptos de Antonio Ribeiro dos Santos, que mais especialmente se referem a questão da origem da nossa lingua.

LES ÉLÉMENS PRIMITIFS DES LANGUES PAR L'ABBÉ BERGIER. Besançon. 1837.

OS 4.° da 6.a Dissertação trata da origem da lingua franceza, e de averiguar se ella descende do latim.

Empregaremos, quanto fôr compativel com o breve resumo que vamos dar, as proprias expressões do author, para não roubarmos aos seus argumentos a força que poderem ter.

Forão latinos os prégadores que estabelecerão a religião christā; e dahi vem que os termos francezes, relativos a religião, forão tirados da lingua latina.

Tambem não ha duvida em que os termos das sciencias e bellas artes são latinos.

Mas não são latinos os termos relativos ás artes mecanicas, á arte militar e á navegação; nem tão pouco o são os termos simplices, as ligações do discurso, as palavras que exprimemas cousas da primeira necessidade, ou os usos commu::s da vida.

A syntaxe da lingua franceza nada tem de commum com a da latina; circumstancia ponderosa que torna bem suspeita a genealogia que pretende dar-se ao francez.

Crê-se que nos cinco seculos da dominação romana o latim absorveu completamente a linguagem das Gallias; mas, sem oppôr a essa opinião os monumentos historicos, como já fez M. Bullet, nas suas Memorias sobre a Lingua Celtica, apresenta M. Bergier a seguinte prova de facto em contrario: Ha quasi oitocentos annos que o francez começou a formar-se, e a ser fallado nas Gallias, sem que tenha supplantado o patois de diversas provincias, succedendo haver ainda em França muita gente que não sabe sequer quatro phrases francezas.—Logo, subsistião esses patois no tempo em que as pessoas polidas fallavão latim; logo o latim não fez em 500 annos o que o francez não pôde fazer em oito ou nove seculos; logo, os camponezes fallão ainda a mesma algaravia, de que seus paes se servião antes da conquista dos Romanos e dos Francos.

Quando os grammaticos encontrão um termo francez semelhante a um latino, concluem immediatamente que o primeiro descende do segundo; mas fòra mister provar, antes de tudo, que aquelle termo não se encontra em nenhum dos patois que se fallão em França.

As colonias que povoárão a Italia são da mesma origem daquellas que vierão habitar as Gallias; tendo uma linguagem commum, veio esta a constituir a essencia da lingua latina, do mesmo modo

que da grega. Seria para admirar, que estas duas linguas não tivessem termos semelhantes; e por quanto os paes

fallárão a mesma lingua, he natural que os filhos possão ainda entenderse, sem pedirem de emprestimo palavras uns aos outros.

¿Como explicar a existencia de termos gregos e hebraicos no patois dos montanhezes de Cevennas e dos Vosges, e a construcção hebraica das suas phrases? A historia do genero humano, e da propagação das linguas encerrão a explicação.

Quando os etymologistas dizem que tal termo vem do latim, tal outro do grego, etc.; he ainda necessario que elles nos digão de qual lingua os Latinos, etc., recebêrão os seus.

Eis-aqui como M. Bergier conclue:

=«La question de l'origine du françois, si long-temps agitée, est donc à proprement parler une affaire de calcul. Y a-t-il dans cette langue un plus grand nombre de termes tirés des patois, qu'il n'y en a de dérivés du latin? Si la pluralité se trouve dans les patois, leur construction étant plus semblable au françois que celui-ci au latin, la cause est jugée en faveur des patois; ils sont la vraie source de notre langue. Jusqu'à ce que la supputation ait été faite, le procès demeure indécis, et nous devons nous borner à dire, comme les Romains, que notre langage est formé en partie d'une langue polie, et en partie d'un jargon barbare. Mais ce jargon même a été bâti sur le même fonds

que les langues les plus élégantes de l'univers, sur les monosyllabes dont se servoient les aieux du genre humain.» - ANTONIO RIBEIRO DOS SAntos pretendia, ao que parece, escrever uma obra sobre as Origens da Lingua Portugueza, pois que entre os seus manuscriptos se encontrão varios volumes, nos quaes hia reunindo apontamentos sobre esta materia. Desgraçadamente, porém, o que existe a semelhante respeito, na Bibliotheca Riberiana, he informe, e pouco aproveitavel; sendo aliás de crer que o laborioso Author, se a vida lhe não faltasse, teria augmentado esses apontamentos, e tirado d'elles o partido que levava em vista.

Ainda assim, temos por indispensavel indicar aqui os Mss., que mais particularmente se referem a questão da origem da nossa lingua.

ORIGENS LATINAS DA LINGUA DE ESPANIA.- Neste volume, a que o Author não tinha dado a ultima demão, apresenta varios argumentos para contrariar a filiação latina das linguas de Hespanha, os quaes pela maior parte se encontrão, dispostos em melhor ordem, na Memoria de D. Francisco de S. Luiz, que já extractamos. O Author estabelece as seguintes asserções:Muitas palavras havidas por latinas são primitivas da Natureza; -muitas vierão d'outras fontes, do grego, do celtico; -muitas receberão os latinos de nós, e não nós d'elles, em cousas de agricultura e de milicia;- muitas só são do latim barbaro da idade media, palavras não latinas de nascimento, mas sim adoptadas de varias linguas dos povos barbaros, ás quaes se dava terminação ou inflexão latina; -ha na nossa lingua uma immensa quantidade de palavras, que não são latinas, nem compostas ou derivadas delle; — ha palavras que não são realmente latinas, posto que derivadas ou compostas d'elle;- e finalmente ha uma extraordinaria somma de palavras, que tomámos do latim, depois da nossa lingua já estar formada. -Seguem-se depois os argumentos relativos á syntaxe, adverbios, etc., etc., que já vimos na Memoria de D. Francisco de S. Luiz,

NOTICIAS DA LINGUA CELTICA E DE SEUS DIVERSOS DIALECTOS.- Na Introducção estabelece o Author as duas seguintes asserções:— 1.«A maior parte dos povos de Espanha, anteriores a Francos, Gregos e Romanos, era Celtica; e Celtica era portanto a sua Lingua, como o era a sua gente. » — 2.°«No Celtico achamos, ou a explicação, e razão da maior parte dos antigos vocabulos de Espanha, ou a sua analogia e semelhança; o que mostra ainda, independentemente daquella prova, que o antigo idioma do paiz era de sua origem celtico.»

-ORIGENS CELTICAS DA ANTIGA LINGUA GERAL DE ESPANHA E DE SEUS ACTUAES DIALECTOS.

Com esta epigraphe: Antiquam exquerere matrem-Contém um Diccionario Harmonico-Analogico do Celtico Espanhol.

Diz o Author na Introducção: -« Depois do vocabulario Harmonico-Hispano-Celtico, apresentamos outro simplesmente Analogico, em que não já pelas radicaes, mas só pela mera analogia e conformidade ou semelhança mechanica dos termos, independentemente da significação, se mostra a filiação e affinidade Celtica dos antigos vocabulos de Espanha. »=

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