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sempre se vai enriquecendo, e já he tão abundante. e opulenta, que em todas as materias tem ricos termos. Era antigamente a lingoa portugueza tam pobre, como o foram todas as mais lingoas nos seus principios; só nas folhas de alguns livros Historicos, ou Predicativos, sahia singelamente á luz; mas com as obras de muitos Autores teve successivamente tão preciosos ornatos, que não tem que envejar ás mais elegantes Lingoas da Europa o seu luzimento.»=

O PADRE ANTONIO VIEIRA.—« Approvação da 3.o parte da Hist. de S. Dom.)

« A linguagem, tanto nas palavras como na phrase, he pura« mente da lingua em que (o author) professou escrever, sem a mistura ou corrupção de vocabulos estrangeiros: os quaes só « mendigão de outras linguas os que são pobres de cabedaes da « nossa, tão rica e bem dotada, como filha primogenita da La« tina.»

O Padre Antonio Vieira a approvar as obras de Fr. Luiz de Sousa! que feliz combinação! que apropriado lance! Com rasão rompem os authores illustres do Diccionario da Academia nestas enthusiasticas palavras:=Que homem tão proprio para avaliar o preço de outro assim como elle illustre, e tanto seu similhante!=

FRANCISCO Dias GOMES.—«Obras poeticas.»

«As composições poeticas de Francisco Dias Gomes, diz o « sabio Stockler, e as annotações que elle mesmo fez são, quanto « a mím, o mais perfeito, ou talvez o unico modelo, que nestes « ultimos tempos se tem entre nós publicado, digno de apresen« tar-se aos olhos de quem pretende escrever com elegancia e «pureza no idioma portuguez. Pelo menos são certamente bem « poucos os escriptos do nosso tempo, que n'este artigo se pos« sam mostrar isemptos de nodua: e não sei que haja um só, o « qual seu auctor tomasse o trabalho de annotar, como Fran« cisco Dias, com tantas e tão bem escolhidas observações cri«ticas sobre a indole particular da nossa lingua, e sobre as dia versas elegancias e maneiras, que determinão, por assim di« zer, o seu caracter.

São na verdade um primor de philologia as annotações de Francisco Dias Gomes, e por isso muito recommendaveis aos que pretendem obter cabal conhecimento da Lingua e Littera

!

tura Portuguezas. Na parte que especialmente nos occupa, devemos indicar como um excellente subsidio as annotações á ode 2.* (pag. 277 a 318) dedicada á Lingua Porlugueza, a qual começa assim:

«Lingua, cuja suave melodia,
«Cuja enchente fecunda de expressões
«Clara te faz entre as viventes linguas

que

todas illustre. »

«Mais

Se Virgilio e Cicero, diz depois o poeta:

«Quvissem como sôas doce e branda;
« Tua indole grave e magestosa,
a Flexivel para todos os assumptos,

« Attentos contemplassem:

« Do mais polido seio da Latina
« Dirião ser nascida a Lusa Lingua,
« A mais propria de assumptos magestosos,

«De engenhos levantados.»

Nas Notas a esta Ode espraia-se o author em louvores a nossa lingua, descrevendo com summa erudição, apurada critica, e finissimo gosto, a doçura e harmonia da lingua portugueza, a sua copiosidade e abundancia de palavras--a sua magestade,

, pureza e elegancia—a sua flexibilidade para todos os assumptos.

Teremos occasião, quando tratarmos dos Escriptos Philologicos e da Critica Litteraria, de citar novamente, e com maior amplitude, as «Obras poeticas » de Francisco Dias Gomes, e então observaremos o quanto he rica a preciosa mina de doutrina litteraria, que este grande humanista nos offerece nas suas «Notas. »

-A. M. Sané.-«Introduction sur la Littérature portugaise.»

«Qu'on ne croie pas que la langue portugaise soit proprea ment restreinte au peuple qui la parle; elle est encore la lan« gue du commerce asiatique; elle est répandue depuis le Cap « de Non jusqu'aux îles du Japon, et depuis l'île de Madère a jusqu'au Brésil: d'ailleurs, cette langue est belle, sonore, nomubreuse; affranchie de cette aspiration gutturale que l'on re« proche à l'espagnole, elle a toute la douceur et la souplesse « de l'italienne, la gravité et les couleurs de la latine. C'est dans « Camoëns qu'il faut la méditer, et l'on sera étonné avec quel « art il a su la façonner à sont puissant génie. »

Corri muito apressado nesta parte do meu trabalho, porque urge passar ao exame de pontos mais substanciaes do estudo da nossa lingua. O grande numero de escriptores, tanto anteriores a nós, como contemporaneos, que deixei de mencionar neste capitulo, serão devidamente commemorados, á proporção que fôr fazendo a resenha dos escriptos mais valiosos.-Dou-me pressa em tratar dos seguintes objectos:

Independencia da Lingua Portugueza.
Sua filiação.

Herança de vocabulos e phrases que diversas linguas lhe legárão.

Influencia que tem recebido das linguas modernas.
Sua indole, revelada pelos escriptos dos classicos.
Orthographia e pontuação.
Grammaticas e diccionarios.

CAPITULO III.

DA INDEPENDENCIA DA LINGUA PORTUGUEZA.

A lingua portugueza nunca poderia ser um dialecto da hespanhola, por quanto, recorrendo aos monumentos historicos da peninsula, em vez d'uma só lingua como origem da nossa, encontramos a fuzão de muitas. (O INSTITUTO n.o 11. Art. do Sr. Torre e Almeida.)

A TAREFA, em que vamos proseguindo perseverantes, fôra por certo ingrata, principalmente para os leitores, se unicamente nos limitassemos a apontar as fontes onde pode ir beber-se a doutrina sobre os differentes ramos da nossa Litteratura. He por esta rasão que havemos de continuar a amenisar a aridez do nosso trabalho, demorando-nos aqui e acolá em algumas considerações criticas e doutrinaes. Fazendo assim, somos como o viandante, que de vez em quando se assenta a sombra de uma arvore para tomar um pouco de repouso, ou se detem no cimo

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da montanha para gozar uma vista graciosa, ou na planicie, e por ventura á borda de um regato, para colher uma florinha.

Já démos noticia dos authores que encarecêrão a excellencia da nossa lingua, e passamos agora a fazer a resenha de tudo quanto de mais importante se tem escripto sobre a sua independencia, filiação, herança proveniente das linguas orientaes, influencia recebida das linguas modernas, sua indole revelada pelos escriptos dos classicos, orthographia e pontuação, grammaticas e diccionarios. Improba tarefa, que nos levará bastante tempo, e dará logar a uma longa serie de artigos! Confiados, porém, na indulgencia dos sabedores, não abriremos mão do nosso humilde trabalho sem o levar ao cabo.

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INDEPENDENCIA DA LINGUA PORTUGUEZA.-Em uma obra franceza, publicada não ha muito, e aliás recommendavel por bastantes titulos, se lê o seguinte periodo: «Le portugais, diaalècte de l'espagnol, témoigne de son ciel et de son climat pres«que africains, par une prononciation plus gutturale et un orien« talisme plus prononcé. »

Custa realmente a conceber que se escreva com tamanha leveza, e ainda mais que assim o faça quem n'outros logares da sua obra dá mostras de profundo saber e de vasta erudição! Pois a lingua portugueza he um dialecto da castelhana? Pois a pronunciação do portuguez he mais guttural do que a do castelhano?

Mas que muito, se tantas outras extravagancias têem publicado estrangeiros sobre as nossas cousas! O general Dumouriez, por exemplo, assevera no « Estado presente de Portugal» que Camões intitulára o seu poema: Lusiada, porque se chamava Luiz! E comtudo, observa judiciosamente um critico, ? este general é auctor, esteve em Portugal, e escreveu sobre Portugal!

Que se entende por dialecto? Dialecto be a linguagem particular de uma provincia, colonia ou cidade, derivada ou alterada da lingua geral d'onde procede, na pronuncia, accentuação, desinencia dos nomes, etc. - Sermo, quo inter se discernuntur populi, eâdem lingua utentes. Conseguintemente, para que o portuguez fosse um dialecto do castelhano, fôra mister consi

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Plan d'une Bibliothèque universelle, par L. Aimé Martin. 2 Memoria em defeza de Camões contra M. de La Harpe, por Antonio de Araujo de Azevedo.

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derar este ultimo como lingua geral, d'onde procedesse o primeiro. Mas a historia e a philologia nos ensinão, que, para descobrir o segredo da filiação da nossa lingua, he preciso remontar a mais antiga origem, e que essa origem, commum á castelhana, estabelece entre ambas o estreito laço de parentesco, que no-las faz ter como irmās. He verdadeiramente n'esta hypothese que se pode dizer com M. Klaproth: Quand on se livre à des considérations sur la parenté des langues, il faut s'habituer à la ligne horizontale, et à voir les choses rangées l'une à côté de l'autre.

He incontestavel que as primitivas linguagens da Peninsula Iberica receberão a influencia dos idiomas dos povos, que successivamente dominárão nas Hespanhas, e que essa influencia foi tanto mais profunda nas diversas fracções de territorio, quanto respectivamente mais duradoiros ou mais intimos forão o tracto e a communicação com esses povos.

Não podia, pois, deixar de haver uma grande similhança entre o castelhano e o portuguez, como descendentes que são das mesmas origens, como sujeitos que forão a quasi identicas influencias; mas nem por isso são menos independentes um do outro, no sentido em que os idiomas se podem dizer independentes.

Fòra realmente absurdo considerar o portuguez como um dialecto do castelhano, quando cada uma d'essas linguas se ostenta soberana nos seus dominios, independente nos seus estados, e para o dizer sem figura, quando cada uma d'ellas apresenta uma litteratura propria, distinctamente caracterisada, perfeita,

- quando cada uma d'ellas serve para o tracto de um povo culto. differente do outro a tantos respeitos,- quando entre ambas ha tamanha diversidade na indole, nas feições, no genio.

Vejamos o que a este respeito dizem alguns escriptores:

-BLUTEAU. — «Vocabulario Portuguez e Latino. » — Diz que a similhança não he corrupção, e accrescenta: «As linguas portugue a e castellana são duas irmãs, que têem alguma similhança entre si, como filhas da lingua latina; mas uma e outra logra a sua propria independencia e nobreza, porque nem do portuguez se deriva o castelhano, nem do castelhano descende o portuguez... Cada uma das duas nações pelo seu modo alterou, adulterou e corrompeu a lingua romana ou latina; porém, com tão senhoril fidalguia, que, nas palavras derivadas do latim, nem

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