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perides os pomos de ouro, se se tirão humas noticias, apparecem outras igualmente preciosas; o selecto dellas ainda na multidão conserva a singularidade, e a sua abundancia excede o dezejo de as exhaurir, sem que nunca menor numero, pela raridade, as possa fazer mais apeteciveis, porque ainda na copia innumeravel são tão excellentes, que sempre se conservão admiraveis.»=

As Orações são tambem empoladas, peccão pela maior parte nos mesmos defeitos que as Praticas. Para não citar muito, transcreverei apenas um trecho da que recitou o Padre D. Manoel Caetano de Sousa, na ultima conferencia do anno de 1723:

«Se estas Corôas se houvessem de formar de estrellas, já S. Magestade com esta piedosa profusão dos seus thesouros teria empobrecido de luzes o Firmamento animado incomparavelmente mais benefico. Tantas são as Corðas que tem merecido! As quaes entre os Romanos tiverão a mayor estimação, como testemunha Plinio na sua historia; (Plinius lib. 16. cap. 4.) e por isso sempre forão o mais digno ornato das cabeças dos Soberanos, como disse Seneca: Nullum ornamentum Principis fastigio dignius, pulchriusque est, quàm illa corona ob cives servatos (Senec. lib. 1 de Clement. cap. 26.)»=

Vejamos agora quaes progressos fez a Academia Real da Historia Portugueza, e quaes serviços prestou ás nossas Letras. Aproveitaremos para esse fim a Memoria do Progresso dos Estudos Academicos, offerecida ao Sr. D. João V, no anno de 1734, pelo Conde da Ericeira, a qual vem na Collecção de

que estamos tratando, e temos á vista.

O Conde da Ericeira faz primorosamente a resenha do contheudo da collecção da Academia, e vem a ser mais de 1500 Noticias do que se passou nas Conferencias; Contas dos estudos dos Academicos; Panegiricos; Orações; Elogios; Declarações dos Directores; Dissertações; Catalogos historicos; extractos criticos de livros raros manuscriptos, e impressos; documentos extrahidos dos melhores archivos, ou noticia delles; explicação de medalhas, inscripções e epitafios etc.; além dos Diplomas Regios, Estatutos, Decisões etc. relativos á Academia.

Passa depois a referir as composições Academicas que já estavão impressas, ou estavão para sahir á luz, devidas ao trabalho dos Academicos, ou á inQuencia da Academia, taes como:

1.o-As antiguidades de Braga, em Latim e em Portuguez;-—Memorias Ecclesiasticas, e Geographia antiga de Braga

pelo Padre D. Jeronimo Contador de Argote. 2.'— Memorias para a Historia d'El-Rei D. João 1–por José

Soares da Silva. 3.'—— Memorias Ecclesiasticas do Bispado da Guarda— 1.parte

pelo Doutor Manoel Pereira da Silva Leal. 4.- Historia de Malta - pelo Padre Fr. Lucas de Santa Ca

tharina. 5.°-Ordens Militares que houve em Portugal. 3 vol.- por Ale

xandre Ferreira. 6.'—-Vidas dos Bispos d'Elvas (Latim) pelo Marquez de Ale

grete, Fernào Telles da Silva. 7°—Uma parte da historia dos Romanos na Lusitania pelo

Marquez de Fronteira. 8.'—-Apparato da Disciplina Ecclesiastica deste Reino--por D.

Francisco de Almeida. 9.—Memorias d'El-Rei D. Sebastião-por Diogo Barbosa Ma

chado. 10. - Memorias para a Historia da Universidade de Coimbra

- por Francisco Leilão Ferreira.

(Andão na Collecção, e forão depois publicadas, avulsas,

com o titulo de Noticias Chronologicas etc.) 11.- Catalogo Historico das Rainhas de Portugal - pelo Padre

José Barbosa. 12.'—Historia Genealogica da Casa Real de Portugal - e Pro

vas— pelo Padre D. Antonio Caetano de Sousa. 13.'— Diversos trabalhos do Padre D. Raphael Bluteau. 14.'— Vida do Infante D. Luiz-pelo Conde de Vimioso. 15. - Memorias d'El-Rei D. Duarte---por Martinho de Men

donça de Pina e Proença. 16.'--Vida do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira.

E afóra estas, outras muitas composições ha, que fòra extensa tarefa indicar, e podem ver-se na referida Memoria, d'onde igualmente constará a poderosa protecção que o Sr. D. João v prestou ás Letras, animando com generosos soccorros a publicação de dispendiosissimas obras.

Academia Real das Sciencias de Lisboa.

Fôra-nos muito grato consagrar longas paginas á commemoração desta sempre respeitavel Corporação Scientifica; mas somos forçados pela natureza especial do nosso trabalho a só indicar as fontes de informação, a que he necessario recorrer para a sua historia, aliás escripta em tantas Memorias e Publicações notaveis, que por boa fortuna das Lettras e das Sciencias correm impressas.

«Huns poucos de homens, dotados de grande amor das Sciencias, e de muito zelo pela verdadeira gloria e felicidade da sua Nação, animados por hum Varão illustre, que cultivando as Lettras desde os seus primeiros annos, e havendo examinado os progressos que ellas havião feito nas cidades mais polidas da Europa, as desejava ver não só restauradas, mas vulgarisadas na sua Patria; estabelecerão esta Academia das Sciencias, consagrada ao augmento dellas, e á propagação das luzes pelas diversas classes da Sociedade. »

O Varão illustre de quem falla o sabio Trigoso, que escreveu aquellas palavras, he o Duque de Lafões, Tbio da Senhora D. Maria 1. Ao zelo e diligencias do preclarissimo Duque se deve a fundação da Academia Real das Sciencias, cujos primeiros Estatutos forão approvados por Aviso de 24 de Dezembro de 1779.

Os subsidios para a IIistoria da referida Academia são os seguintes:

MEMORIAS DA LITTERATURA PORTUGUEZA.
HISTORIA E MEMORIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS.
MEMORIAS ECONOMICAS DA ACADEMIA R. DAS SC. DE Lis-

BOA.

COLLECÇÃO DE Livros INEDITOS DE HISTORIA PORTUGUEZA.
UM SEM NUMERO DE PUBLICAÇÕES INTERESSANTES DE DO-

CUMENTOS E LIVROS DE SCIENCIAS E BELLAS-LETRAS, E
DE OBRAS AVULSAS, COMPOSTAS POR ACADEMICOS, E MAN-

DADAS PUBLICAR POR ORDEM DA ACADEMIA. Nestes documentos importantissimos, que deixamos apontados, encontrão-se os muitos relevantes serviços que uma tão respeitavel Corporação tem prestado ás Lettras patrias, á Sciencia, e ao desenvolvimento da prosperidade nacional. — Passemos agora a indicar os subsidios relativos á constituição organica da AC: demia, e Legislação e estilos porque se tem governado.

Collecção Systematica das Leis e Estatutos, por que se tem

governado a Acad. R. das Sc. de Lisboa, desde o seu estabelecimento até o tempo presente. Lisboa 1822.

He um trabalho feito pelo Academico Francisco Manoel Trigoso d'Aragão Morato. Em uma nota ao S 11 da dita Collecção vem apontados os Livros e Minutas que Trigoso consultou; e aos documentos ahi referidos nos remettemos, para o conhecimento da fundação, leis, planos de estudos, primeiros Estatutos, etc.

Novos Estatutos da mesma Acad., approv. por Dec. de 15

de Outubro de 1834.

Portaria de 23 de Outubro de 1834, mandando entregar

á Academia a guarda, uso, e administração da Livraria do extincto Convento de Jesus, para que unida a da Acad., bem como o Museu, fossem franqueadas ao Publico em beneficio das Sciencias e das Lettras.

Nesta Portaria he commemorado o admiravel rasgo de generosidade do Padre Mestre Fr. José Mayne, Religioso da 3.o Ordem de S. Francisco, o qual applicára em sua vida algumas propriedades e dinheiro, provenientes de seus ordenados, para o accrescentamento, e manutenção da Livraria do Convento de Jesus, para a creação e estabelecimento de um Museu e Gabinete de medalhas e pinturas, e para as despezas de uma Cadeira de Historia Natural applicada a demonstração dos attributos de Deos. -Na mesma Portaria são commettidas á Acad. a administração e direcção dos mencionados estabelecimentos, e das propriedades e dinheiros applicados á sua manutenção.

(Em Outubro de 1834 era Min. dos Neg. do Reino o Bispo Conde Fr. Francisco, que depois foi Cardeal Patriarcha de Lisboa, e cujo nome he tão caro ás Lettras Portuguezas.)

Novos Estatutos da mesma Acad. de 15 de Abril de 1810.
Decreto de 13 de Dezembro de 1851, reformando e mo-

dificando os Estatutos da mesma Acad.
Decreto Regulamentar de 22 de Dezembro de 1862, nos

termos do Art." 25 do Decreto antecedente.

Arcadia de Lisboa.

Para conhecimento da historia desta Sociedade litteraria, e da influencia que teve na restauração da nossa Litteratura, lemos um interessante subsidio, qual he o seguinte

MEMORIAS SOBRE O ESTABELECIMENTO DA ARCADIA DE LIS

BOA, E SOBRE A SUA INFUENCIA NA RESTAURAÇÃO DA
NOSSA LITTERATURA — por Francisco Manoel Trigoso

d'Aragão Morato. Desta rica Memoria já fiz menção especial no Cap. 2.°, Titulo 2.°, deste trabalho, e a noticia que ali dei me reporto agora, accrescentando algumas breves noticias.

Esta Academia, para o estabelecimento da qual não concorreu o poder Real, foi devida aos esforços de dous Magistrados illustres, Antonio Diniz da Cruz e Silva, e Manoel Nicolao Esteves Negrão, os quaes, conferindo primeiramente entre si, e depois com o Dr. Theotonio Gomes de Carvalho, formárão um plano de Estatutos para a futura Sociedade, nas reuniões que celebrárão nos dias 15 e 20 de Agosto, e 23 de Setembro de 1756, conseguindo que a Arcadia se constituisse definitivamente em 19 de Julho de 1757.

As risonhas reminiscencias da Grecia antiga forão parte para que adoptassem o nome de Arcadia, e o de Monte Ménalo para o local das suas conferencias; e por quanto os Alumnos da Arcadia se figuravão pastores, cada um delles devia escolher nome e sobrenome pastoris. Já no Capitulo 2.°, Titulo 2.°, pag. 62, disse quaes forão os Arcades mais celebres, e os nomes que esses adoptárão.

Vejamos, muito em resumo, os serviços que a Arcadia prestou á nossa Litteratura:

« Abrangendo o fim do estabelecimento da Arcadia, diz Trigoso, não só a reforma da Poesia Portugueza, mas tambem a da Eloquencia, e a da Linguagem patria; muitas forão as regras que os Arcades dictárão, para estes estudos se elevarem a sua antiga e aurea simplicidade.)

«Hum grande triunfo ganhárão os Arcades sobre o grande numero de insipidos versejadores do seu tempo, e este foi terem deixado provado com o pezo das razões, e ainda mais com a efficacia dos exemplos, que a poesia vulgar era independente do

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