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Fuoriptos Bibllographalcos.

A Bibliographia, limitando-se unicamente a descrever livros, he apenas a sciencia do Livreiro; mas se ella se propuzer a classificar methodicamente os Livros, a distinguir os bons dos máos, a indicar as edições raras, a inculcar as obras mais uteis e preferiveis entre as immensas producções que hoje enchem as Bibliothecas; — neste caso a Bibliographia póde tornar-se interessante e muito proveitosa ás Lettras e ás Sciencias.

Será pois um excellente Bibliographo aquelle que pudér dar noticias apuradas e seguras, tendentes a guiar pelo melhor e mais curto caminho para a acquisição de conhecimentos, e a promover a disposição e collocação mais propria dos livros, em ordem a que seja facil encontra-los, ainda na mais vasta collecção.

Não entra no nosso plano fallar aqui dos preciosos trabalhos bibliographicos dos de Bure, dos Peignot, dos Brunet; aqui só nos occupamos dos escriptos bibliographicos relativos á nossa Litteratura.

Neste genero possuimos os seguintes subsidios:

CATALOGO ALPHABETICO, TOPOGRAPHICO, E CHRONOLOGICO DOS AUTHORES PORTUGUEZES, CITADOS PELA MAIOR PARTE NESTA OBRA (Vocabulario Portuguel e Latino) — pelo Padre D. Raphael Blutean.

(Vem no Tomo 1.o do Vocabulario) =«De todos os Autores Portuguezes, diz Bluteau, que me vierão á mão, fiz este Catalogo, não só, para seu credito delles, mas para autoridade deste Vocabulario, porque rara he a palavra, menos vulgarmente usada, ou termo scientifico, e extraordinario, que não venha authorizada com algum exemplo, e juntamente com a citaçam da pagina no livro do Autor allegado. Até das palavras, mais vulgares, muitas vezes trago exemplos, para que conste do sentido, em que forão usadas; e não he superflua esta curiosa pontualidade, porque sobre o significado de termos corriqueiros, e chulos, muitas vezes se levantão controversias, que só com o exemplo de algum Autor se decidem.»

Bluteau explica depois a razão dos titulos do seu Catalogo:

=«Os titulos deste Catalogo sam tres, por tres razões. He alphabetico, topographico e chronologico. Alphabetico, pella disposiçam dos Autores pelos seus nomes proprios, segundo a ordem das suas letras iniciaes; Topographico, com a declaraçam da Cidade, e oflicina, em que o livro foi impresso; e Chronologico, pella noticia do Anno, em que sahio a luz. Destes tres titulos nascem tres utilidades; a saber, o conhecimento do Autor, da ediçam, e do tempo, em que foi impressa a obra.... A este Catalogo se seguiram outros tres; o primeiro de alguns Autores Portuguezes, de cujas obras, ainda que só manuscritas, me vali neste Vocabulario; o segundo dos livros, dos quaes o Autor se dissimúla, ou se ignora; e o terce.ro das materias tratadas por Autores Portuguezes,»=

Neste ultimo Catbalogo classifica Bluteau os Authores Portuguezes, segundo as materias de que tratárão; e nessa classificação se encontrão os tratados de Medicina, Cirurgia, etc. etc.Bluteau comprehendeu perfeitamente a indispensabilidade de abonar as suas asserções com os exemplos de authores especiaes, segundo a especialidade das materias. «Aos que condemnarem a confiança, com que allego com toda a casta de Autores, respondo, que me aproveitei de todos, por que nas materias da sua profissam, cada hum delles he Texto. Em Cirurgia, e Medicina tão propriamente fallam Antonio da Cruz na sua Recopilação, e o Doutor João Curvo na sua Polyanthea, como João de Barros na Historia, e o P. Antonio Vieira na Predica; e a seu tempo, e lugar tanto caso fiz de algumas expressoens de Antonio Galvam na sua Alveitaria, e de Manoel Leitam na sua pratica de Barbeiros, como das Phrases, e elegancias de Jacinto Freire, e das metaphoras, e Paranomasias do Bispo do Porto D. Fernando Correa de Lacerda.)=

SUMMARIO DA BIBLIOTHEĆA LUSITANA.- Lisboa. 1786. 4. pequenos volumes.

He um resumo da Bibliotheca Lusitana de Diogo Barbosa Machado, feito pelo Professor Bento José de Sousa Farinha.

Nas proporções a que ficou reduzido o Summario, he um escripto meramente bibliographico, pois que se limita a dar conhecimento das obras que os differentes Authores compozérão, omittindo as noticias biographicas e litterarias, que o Abbade de Sever apresenta mui circumstanciadamente.

Ainda assim, porém, he o Summario um bom soccorro para quem não pode ter á mão a Bibliotheca Lusitana.

CATALOGO DOS AUTORES QUE SE LÊRÃO, É DE QUE SE TOMÁRÃO AS AUTORIDADES PARA A COMPOSIÇÃO DO DICCIONARIO Da Lingoa PORTUGUEZA. FORMADO PELA ORDEM DAS ABBREVIATURAS DOS NOMES E APELLIDOS DOS MESMOS AUTORES, E DOS TITULOS DAS OBRAS ANONYMAS.

(Vem no 1.o e unico Tomo do Diccionario da Lingua

Portugueza, publicado em 1793 pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, —o qual parou no verbo n.

Azurrar.) «O intento do... Catalogo (diz-se no Aviso ao Leitor) he dar aos Leitores do Diccionario huma breve, mas clara noção da idade, em que florecerão os Autores, que nelle se citão, com a declaração de suas patrias, quando estas se conhecem, e hum juizo geral do seu merecimento litterario ou tirado do intrinseco exame de suas obras, ou das autoridades extrinsecas, com que aquelle se acha já comprovado.»

O Catalogo pode ser considerado como um Supplemento á Bibliotheca Lusitana, em quanto aos Authores que se lèrão para a composição do Diccionario; e he muito de notar que os titulos das obras citadas no Catalogo são, pela maior parte, mais exactos do que os da Bibliotheca Lusitana, pois que tiverão os Academicos o escrupuloso cuidado de os trasladarem por inteiro e fielmente, dos exemplares de que se servírão, transcrevendo-os com a orthographia que têem nas diversas impressões.

Para se conhecer a fundo a natureza especial, e merecimento do Catalogo, he indispensavel ter em vista as seguintes prescripções da Planta do Diccionario:

=«Começar-se-ba a leitura dos Autores Portuguezes, que conservamos, pelos primeiros Escritores, que principiárão a formar a nossa lingoa. Taes são o Nobiliario do Conde D. Pedro, as Chronicas de Fernão Lopes, Gomes Eannes d'Azurara, a anonyma do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, a Vita Christi, que se diz ser de Fr. Bernardo de Alcobaça, a Regra e Perfeição da conversação dos Monges pela Senhora Infanta D. Catharina, o Cancioneiro Geral, publicado por Garcia de Resende, a Menina e Moça e mais obras de Bernardim Ribeiro, as de Gil Vicente, e quaesquer outras, que estiverem impressas, ainda que sejão da mais remota antiguidade....... Continuar-se-ha a mesma leitura desde Francisco de Sá de Miranda, o primeiro dos nossos polidos e elegantes Classicos, o mais chronologicamente,

que for possivel por todo o decurso do 16.0 e 17. seculos, em cujo fim se lhes fixará o termo.»=

=«Dar-se-ha sempre a preferencia para autorizar os vocabulos aquelles dos nossos Autores, que indisputavelmente se reputão Classicos. E posto que neste numero se devão contar todos quantos decorrem desde o meio do 16.° seculo até fim deste mesmo seculo, e ainda alguns primeiros do outro immediato; aquelles porem, que mais constantemente castigarão as suas obras, e tem mais reconhecido e provado credito por causa da elegancia de seu estilo, serão tambem com mais frequencia citados, não se havendo tanto consideração ao tempo, como ao intrinseco merecimento de seus escritos.)=

=«Da mesma sorte se procederá com os Authores que se seguem a Fr. Luiz de Sousa até ao fim do seculo passado (17.'). Delles se fará porem selecção, admittindo somente os que por sua lingoagem e estilo se julgarem disso merecedores. »=

He tambem necessario, para se avaliar o alcance do Catalogo, ponderar que os Academicos entenderão que a idade mais elegante da pureza da nossa lingua poderá contar-se desde 1540, em que começárão a ler na Universidade de Coimbra os insignes Mestres, que El Rei D. João jii nella estabeleceu, e terminar-se no anno de 1626, na qual sabio á luz a primeira parte da Historia de S. Domingos por Fr. Luiz de Sousa.

Mencionamos neste logar o Catalogo, como um trabalho bibliographico; mas havemos de occupar-nos delle mais detidamente, quando tratarmos da Critica Litteraria.

-CATALOGO DOS LIVROS, QUE SE AÃO DE LER PARA A CONTINUAÇÃO DO DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUEZA-mandado publicar pela Academia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa 1799.

Este Catalogo, feito seis annos depois da publicação do 1.o tomo do Diccionario, apresenta por ordem alphabetica os nomes dos Authores Portuguezes, e os titulos das obras anonymas, sem as noticias biographicas e criticas, que traz o Catalogo antecedente; comprehendendo somente os nomes dos Authores, e o titulo das Obras, com as indicações do logar da impressão, anno, e impressor. Em quanto as obras anonymas copía por extenso os titulos, conservando a ordem alphabetica entre os nomes dos Authores, pela primeira palavra dos titulos.

O Catalogo começa pelas palavras Academia dos Singulares,

como o antecedente, mas termina pelo nome de Xisto Figueira, em quanto que o antecedente termina com a obra de Vita Christi.

Traz no fim a seguinte advertencia:

=« Adverte-se em primeiro lugar, que os descuidos, enganos, e faltas, que se acharem n'este Catalogo, se devem cuidadosamente emendar, e supprir na conta, que se dér dos Livros, que se lèrem, segundo o que se prescreveo no plano do Diccionario (Desgraçadamente nunca tal conta chegou a ser dada, pois que não progredio o Diccionario da Academia.) Em segundo lugar, que os Livros, que aqui não estão apontados pelas mesmas causas, e por ignorancia, se devem accrescentar com o mesmo cuidado, sendo daquelles, que, segundo as regras estabelecidas, se deverão ler.»

Este Catalogo he em todo o caso um excellente subsidio bibliographico, para o conhecimento dos Authores Portuguezes nos seculos XV, XVI, e XVII.

HISTORIA DA ACADEMIA REAL DA HISTORIA PORTUGUEZA

composta por Manoel Telles da Silva, Marquez de Alegrete... Lisboa 1727.

Menciono n’este logar esta obra, e com especialidade o erudito Prologo, por que contém este uma resenha curiosa dos nossos Historiadores até ao apno de 1727.- Passo a dar uma noticia resumida das informações que d'esse Prologo podem colher-se para a nossa Historia Litteraria, citando os juizos criticos do Author:

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Historla Ecclesiastica Geral.

O Licenciado Jorge Cardoso.— Author do Agiologio Lusitano.

« Obra incompleta, e escripta com não menos diligencia, que credulidade. Para ser completa, devia comprehender o anno inteiro; porém só forão impressos os primeiros seis mezes. Uma douta penna da nossa Academia a tem conti

nuado. >> D. Rodrigo da Cunha.- Historia das Igrejas do Porto, Braga

e Lisboa. «Com quanto escrevesse em tempo em que erão estimados alguns authores apocryphos, tem recebido elogios e approvação dos homens doutos. He para lamentar que não estendesse ás demais Diocéses o trabalho, que consagrou ás tres indicadas. >>

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