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A QUEM LER :

No anno de 1849 comecei a publicar na «Revista Universal Lisbonense » alguns artigos, com o titulo de « Litteratura», como ensaio para a realisação de um projecto que formára de inventariar, se assim o posso dizer, os nossos cabedaes litterarios, e de indagar o que nos falta ainda nesse ramo dos conhecimentos humanos.

Com quanto se tratasse unicamente de uma simples tentativa, nem por isso deixei de apaixonar-me pela minha tarefa; mas, quando me sentia com maior ardor na carreira que encetára, eis que os deveres da vida publica me forçárão a largar a penna, e a dar de mão ás lucubrações estudiosas, que tanto me aprasião e captivavão.

Revendo mais tarde o que escrevêra, e passando pelos olhos os apontamentos que havia colligido, reconheci que muito e muito me faltava ainda — para satisfactoriamente me desempenhar do gostoso, quanto difficil empenho, que tomára sobre meus debeis hombros.

Puz de novo mãos à obra, e animado do ardente desejo de ser prestavel, por todos os modos, a esta boa terra de Portugal, dei-me a aturado estudo, conseguindo delinear completamente o plano do meu trabalho, preencher a primeira parte delle, e reunir alguns elementos para as seguintes.

He pois a primeira parte do meu trabalho aquella que dou hoje ao Publico.

Nesta humilde Obra tenho por fim lançar os primeiros traços da resenha da Litteratura Portugueza, indicando os subsidios que possuimos para o estudo da mesma, e diligenciando indagar o que nos resta adquirir, para chegarmos á perfeição neste particular.

Um yasto campo se abrio diante de mim, no momento em que me abalancei a uma empreza tão ardua. Entendi desde logo que me era indispensavel fazer sentir a natureza, importancia e alcance da Litteratura, indicar os ramos de conhecimentos que a constituem, e passar depois a fazer a resenha dos subsidios que possuimos em cada um daquelles. Ora, por quanto são partes integrantes da Litteratura—a Historia Litteraria, propriamente dita,-a Critica,—a Grammatica,--a Linguistica, -a Poesia,-a Oratoria,—a Historia, com os seus indispensaveis auxiliares, -e a Moral;—he evidente que me cumpria percorrer todos os escriptos que possuimos nesses diversos generos, formar um tal ou qual juizo sobre elles, e coordenar a exposição das noticias convenientes.

Bastará que os Leitores vejão o Indice deste primeiro tomo,

conhecerem a extensão e variedade de assumptos, sobre os quaes me foi indispensavel apresentar noticias e esclarecimentos, e ajuizarem desde logo do immenso espaço, que ainda tenho que atravessar.- Neste primeiro tomo, depois de estabelecer os principios geraes sobre a Litteratura, occupar-me-hei da nossa Historia Litteraria, e da Lingua Portugueza; e nem ainda assim fica este ultimo assumpto de todo esgotado, pois que he força

para

IX

reservar para o segundo algumas cousas, cuja exposição, convenientemente desenvolvida, tornaria muito volumoso o primeiro. No segundo tomo concluirei a restante parte do que respeita á nossa Lingua, e largamente me occuparei da Critica Litteraria; passando depois a percorrer as outras provincias da nossa Litteratura.

He mais do que ousada a minha deliberação, passa a ser temeraria, e desassisada, se a méço pela minha insufficiencia; mas concebo a esperança de que me será levada em conta a boa vontade, com que me prestei a ser util ás nossas Lettras, abrindo uma estreita veréda, atravez de campos que não forão ainda devassados, — veréda estreita, que outros operarios, infinitamente mais habeis do que eu, hãode converter em larga estrada. Mi sat erit specimen clari monstrasse laboris.

Mas ainda assim, não se pense que eu me arrojasse a escrever para os já sabedores:- Porque nam se leva agoa ao mar, flores ao prado, nem costumamos dar a outrem o que em - casa lhe sobeja, como dizia o nosso Gaspar Estaço. Não; o meu proposito foi indicar á Mocidade estudiosa as fontes dos conhecimentos verdadeiros, nos differentes ramos da nossa Litteratura; apresentar-lhe o quadro dos variados elementos que constitúem e formão as Bellas-Lettras; dar-lhe noticia da nossa riqueza em alguns ramos, e da nossa penúria em outros; e finalmente, encaminhar essa esperançosa porção da Sociedade para o mais facil conseguimento de solida instrucção.-E se acaso aos doutos e aos sabedores ousasse dirigir-me, seria unicamente, ou para lhes pedir, respeitoso, que supprissem a minha defficiencia, nas muitas occasiões em que a hãode notar, -ou que houvessem de encher as lacunas que existem ainda na Litteratura Portugueza.

Procurei ser claro na exposição, methodico em a coordenação das materias, parco em reflexões, moderado nos juizos criticos, exacto nas citações, e escrupulosamente veridico em tudo

quanto digo e allego. Não obstante, porém, todo o meu cuidado, não me custa a crer que muitas vezes me escapará-ou falta ou demasia; mas desde já declaro que de bom grado acceitarei qualquer aviso, ou conselho, protestando a devida correcção nas outras partes da Obra.

Por querer authorisar o meu trabalho, recorro quasi sempre a citações dos escriptos que menciono, receiando que as minhas proprias palavras não tenhão a mesma força que as originaes dos authores.

Nas citações conservo a orthographia propria dos diversos escriptos, segundo me pareceu conforme à fidelidade, que neste ponto deve guardar-se.

Tenho por muito provavel que nas diversas materias me succeda omittir a menção de algum author, ou de alguma obra, que conviesse indicar; -mas advirto que heide emendar posteriormente esse descuido, quer eu proprio o venha a descobrir, quer me seja benevolamente advertido.

Supplíco a indulgencia do Publico; e se tão generosa graça me før liberalisada, progredirei mais animado na continuação do meu trabalho. Em todo o caso, direi com um author portuguez:.... Deste escripto, que ponho publico a todos os que delle se quizerem aproveitar, tirarey a satisfação do meu trabalho na utilidade alheia, e quando lhe não supponhão nenhuma, e me falte a gratidão, que merece a minha boa vontade, tambem me não escandalisará esse desconhecimento.

Lisboa Oulubro de 1853.

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