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de termos e phrases no idioma portuguez.-- Exemplifiquemos isto como uma phrase citada no «Glossario » Templos, cujas torres sobem, e se elanção para Deus. Esta phrase he a traducção litteral de outra correspondente em francez: Des temples, dont les tours montent et s'élancent vers Dieu. ¿Poderemos acaso trazer para a nossa lingua o verbo elançar-se, embora seja muito energico e expressivo no francez o correspondente s'élancer? Que necessidade temos de um tal vocabulo? Em qual dos nossos bons escriptores o encontramos? Devemos acaso preferil-o aos termos portuguezes: arremeçar-se, abalançar-se, arrojar-se, talvez arremeter, e na phrase citada, subir ás nuvens, ocar o céo, ou ir ás nuvens e tocar o céo? Não fica por ventura mais elegante, mais verdadeiramente portugueza essa phrase, dizendo-se: Templos, cujas torres vão ás nuvens e tocão o céo?

Necessitamos pois hoje de uma boa carta, onde venhão marcados os escolhos e baixios em que têem naufragado pilotos inexpertos; e por ventura encontramos essa carta no «Glossario»; interessante livro de que muito careciamos, e que pode servir de seguro guia aos que présão a pureza da nossa lingua.

He de toda a justiça pagar nesta occasião um tributo de reconhecimento ao já citado Francisco Manuel do Nascimento, pelos relevantes serviços que neste particular prestou à nossa lingua, pelejando corajoso e incansavel,—direi até-enthusiasta e apaixonado, contra os que em traducções, ou em obras originaes, desfigurárão a natural formosura e galhardia de tão rico idioma. Em todas as suas obras deu mostras do quanto tomou a peito essa cruzada de nova especie, mas sobre tudo he notavel e digna de ser lida uma e muitas vezes a sua inimitavel « Epistola » sobre a arte poetica e lingua portugueza.—Honrosa e muito distincta menção devemos fazer tambem do excellente trabalho de philologia que acima apontámos, e vem a ser: Ensaio critico, sobre qual seja o uso prudente das palavras de que se servirão os nossos bons escriptores do seculo XV e Xvi, e deixárão esquecer os que depois se seguirão até ao presente, por Antonio das Neves Pereira.

Neste precioso trabalho, cuja leitura não podemos recommendar assaz, consagra o erudito author dois extensos paragraphos ao assumpto de que vamos tratando, e são o 3.° e 4.° do capitulo 3.°, um dos quaes tem por titulo: Do abuso das palavras, e idiotismos francezes, que se tem introduzido na lingua portugueza--e o outro: Origem do abuso de palavras, e idiotismos francezes, que se tem introduzido na lingua portugueza.

Para bem se avaliar o que a este respeito sente o judicioso academico, bastará transcrever o seguinte trecho: «He indizivel co que se tem accumulado de francezias, não só em traduções « portuguezas, mas até em obras de varios generos; de forma que « mais necessita a mocidade portugueza hoje de diccionario frana cez para entender os livros da lingua materna, do que do dica cionario da mesma lingua.»

E note-se que he tanto mais ponderoso este juizo, quanto o erudito critico, adoptando o conceito de Ferreira:

Geralmente foi dada boa licença
As linguas: umas as outras se roubárão:
Só o bom sprito faz a differença;

entende que he direito commum nas linguas da Europa o soccorrerem-se e ajudarem-se mutuamente, e que mais prompto e facil recurso temos nas linguas modernas para a provisão de vocabulos, pela communicação que com ellas temos, do que na lingua latina, que he morta ha muito tempo. No que respeita á lingua portugueza, diz elle, tanto menos se pode vituperar, que naturalizemos varios vocabulos da lingua franceza, visto que della temos muitos e antiquissimos, que nos vierão com a monarchia, e outros que já estavão de assento antes della parte dos quaes estão antiquados, parte ainda se conservão de posse nos monumentos dos nossos insignes escriptores, e na mesma linguagem commum.

He pois este critico quem lamenta as nocivas mudanças que a pureza da nossa lingua, a sua elegancia e energia trouxerão as francezias, substituindo-se, sem necessidade e sem escolha, a excellentes vocabulos portuguezes uma alluvião de expressões estranhas, que nem nascêrão para nós, nem se ajustão com as

nossas.

¿Cemo se introduzio nos nossos dominios essa fatal epidemia dos gallicismos ? «A maior parte, diz o author do Ensaio Cri«tico, dos que se dérão ao estudo dessa lingua (franceza), era agente qne nunca estudou a lingua portugueza, nem a lerão nos ( nossos authores classicos....... Não tendo á mão os termos a proprios, e elegantes da nossa lingua, não havia coisa mais fa«cil, que aportuguezar qualquer termo, qualquer phrase, que se « offerecesse no contexto de uma obra, ou porque julgassem que « assim os tinhão em portuguez, ou porque lhes parecia a linagua pobre, e os taes vocabulos necessarios!!...-N'outros não « era tanto falta de conhecimento da lingua, nem dos authores « nacionaes, como uma especie de enthusiasmo, que lhes fazia « considerar no estilo francez não sei que de mais relevante. « Commetterào-se traducções de varias obras, e tratados aos a aventureiros, que se presumião capazes de similbante empreza, cou elles mesmos as offerecião, sem esperar que os rogassem ; «e nas circumstuncias presuppostas, sendo taes traducções feitas « muito á pressa, umas inspiradas pela fome, outras pela prea sumpção, sahião taes como se pode esperar. O que mais admira

0 «he que muitos homens doutos, e versados nos nossos authores... « se deixárão (não sei como) levar da torrente, e abraçárão as «francezias, querendo mais comprazer com o gosto dos insensaatos, do que seguir a prudente austeridade de pequeno numero « dos censores judiciosos: e o peior he, que o seu exemplo, tal« vez a seu pesar, tem servido de authorisar, e propagar a cora ruptella, principalmente nos pulpitos, onde... a doutrina de « Christo já por moda costuma ter mais de phrase franceza, que « de phrase evangelica.»

Qual conclusão tira a final o author do « Ensaio Critico» da doutrina que expõe? A urgente, a impreterivel necessidade em que estamos de expurgar a nossa lingua, e de fazer a mais forte opposição á moda prejudicial..... A lingua franceza já nos deu termos bastantes, que estão no nosso thesouro, e tem a prescripção de mui longa e veneranda antiguidade. Conservemos esses que já são nossos, e sejamos parcos e judiciosos no superfluo,

Cabe tambem aqui mencionar as Reflexões sobre a lingua portugueza, escriptas por Francisco José Freire, publicadas com algumas annotações pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis em 1842.- A reflexão 5. da 1.° parte desta obra refere-se aos vocabulos francezes e italianos, novamente introduzidos na lingua portugueza; e ahi apresenta-se o author a decidir entre os amantes da pura linguagem portugueza, e os defensores das vozes novas, dando a seguinte sentença: (.... Uns «e outros tem rasão. Os escrupulosos, porque é certo, que

haa vendo para exprimir qualquer coisa, termo nacional, e usado a pelos auctores, que são textos, não se deve adoptar um novo; « porque de outro modo nunca se verificará que um escriptor é

a

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« de linguagem mais pura do que o outro, e seria vão o nome « de classico, que se dá aquelles auctores que o mereceram.«Os escriptores indulgentes tem rasão em procurarem, á ma« neira das outras nações, e vivamente protegerem a introducação de vocabulos expressivos e precisos, quando não poderem « exprimir uma coisa, se não por longa, e tediosa circumlocução. «— Eis-aqui o como nos parece que devem concordar os dois a partidos, imbos excessivos: um porque nada permitte, ainda a havendo precisão, outro porque tudo concede, ainda havendo necessidade. »

Temos por mui judicioso este modo de ver as cousas; mas lamentamos que o author não desse maior extensão e desenvolvimento ao assumpto, que em verdade requeria ser tratado menos concisa e resumidamente do que elle o faz.—Veja-se a erudita nota á 5. Reflexão, que se encontra de pag. 168 a 170 da 1.' parte da obra.

No 1.o volume do «Panorama » (1837) vem um artigo muito conceituoso, que tem por titulo «Gallicismos » e começa assim: «A leitura frequente dos livros francezes tem corrompido a nossa «linguagem por tal maneira, que já hoje é impossivel desincal-a « dos gallicismos, nomeadamente os de phrase, em que abunda.»

O erudito author desse artigo não decide a questão de saber, se algumas construcções daquella lingua, extremamente regular, serão boas de ageitar ao nosso idioma; mas tem aliás por incontestavel que a lição de authores francezes poz em esquecimento os portuguezes, e que, sendo a nossa lingua abundantissima, e escaça a franceza a muitos respeitos, pela falta de conversar os escriptores nacionaes, encurtamos e empobrecemos as fórmas e os elementos do discurso. Ainda da leitura das obras francezas se segue outro grave damno, e vem a ser, que até tratando de materias curiosas, os liyros portuguezes enfastião, porque quem está habituado a certas idéas, e a certa ordem e disposição dellas, não gosta do que vae fóra daquelle trilho que costumou seguir.—¿Poderemos remediar até certo ponto estes inconvenientes? Sim, tornando mais accessiveis as fontes da lingua classica portugueza, por meio de uma collecção de pedaços selectos dos escriptores portuguezes, - pela reimpressão economica dos nossos melhores classicos, -e finalmente por meio de traducções bem castigadas de boas obras estrangeiras.

¿Será verdade que se não podem lêr os nossos classicos em rasão dos assumptos que tratárão? ¿Será exacta, em geral, a

a

a

expressão que a respeito de alguns se empregou, chamando-lhes tulhas de dormideiras, em consequencia de se occuparem pela maior parte de vidas de santos, de sermões, historias de conventos, de frades, de milagres, de genealogias estereis, de amplificações bombasticas de combates, etc. etc.?

Não, mil vezes não. Podem a preguiça, e o desamor das cousas patrias inventar quantos pretextos quizerem, mas a todo o tempo estará ahi para responder triumphantemente a calorosa invectiva do Sr. Garrett:

«Vergonhosa desculpa! Com que as Decadas de Barros, que foi talvez o primeiro que introduziu com feliz execução o es«tylo classico na historia moderna, são chronicas de conventos? « Fernão Mendes Pinto, o primeiro europeu que excreveu uma a viagem regular da China e dos estremos d’Azia, são vidas de « santos? E dessas mesmas vidas de santos, quantas dellas são

de summo interesse, de divertida e proficua leitura! A vida de «D. Frei Bartholomeu dos Martyres tem toda a valia das mais «gabadas memorias historicas, de que hoje anda cheia a Euroapa, e que ninguem taxou ainda de pouco interessantes. Quan«do outra coisa não contivesse aquelle excellente livro senão a a narração do Concilio de Trento, a viagem e estada do arce« bispo de Roma, já seria elle uma das mais curiosas e impor« tantes do seculo 16.° E D. Francisco de Mello, e Rodrigues « Lobo, e Camões, e grande cópia de poetas de todos os gene«ros, tudo isto são sermonarios, vidas de santos ? »

Temos apresentado tudo quanto de mais substancial póde dizer-se acerca do assumpto de que nos occupamos; cumpre porém não omittir a indicação de outros pontos de vista, sob os quaes pode ser encarado o mesmo assumpto.

O Sr. A. Herculano, em uma nota ao interessante artigo 1.° «Apontamentos para a historia dos bens da Corôa e dos foraes» allude ao juizo critico, que o illustre Cardeal Saraiva faz no seu «Glossario» sobre as expressões baixo clero, e alto clero, e a esse proposito observa que a clareza importa um pouco mais que os primores e pontualidades da lingua em assumptos historicos.

He sabido que no «Glossario» vem qualificada a expressão baixo clero de tão alheia e impropria da nossa lingua, como indigna de ser adoptada em qualquer idioma polido, e em vez de baixo clero e alto clero, se opina que se diga: os bispos e o clero, ou a ordem episcopal e a clerezia-os pastores da primeira

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